Os homens na plateia voltavam as costas ao proscenio, passavam em revista as espectadoras, punham o monoculo e acariciavam o bigode, sorrindo, satisfeitos, do mundo e de suas pessoas. Outros discutiam politica, liam os jornaes da tarde, ou amodorravam-se nas cadeiras ao lado das esposas.

Como nessa tarde fôra a primeira toirada da época, que terminára sob uma forte batega de agua, espessa como fumo, que n’um abrir e fechar d’olhos evacuára a praça, contavam-se incidentes picarescos da volta sob a chuva violenta que não admittia chapéos e cegava os que na lucta por americanos e carros tinham ficado vencidos, tendo de esperar em qualquer abrigo de porta ou resolver-se a aguentar o peso d’agua caminho de suas casas. Discutia-se Guerrita, que não estivera nas suas melhores tardes de sorte; fallava-se na Duse, que alguns já tinham visto lá fóra, que outros ardiam por vêr, dispostos a acharem extraordinaria essa notabilidade que uma fama universal precedia—Messias de uma arte nova, toda feita de verdade flagrante, commovendo com lagrimas e alegrando com risos copiados da sua maneira de sentir a vida, gritos arrancados ás suas proprias dôres, gestos usados nas scenas reaes em que a superioridade intellectual da artista apreende e estuda no corpo da mulher que a materia despoticamente reivindica.

Sarah, a sacerdotisa—magna, amada sobre todas, vinha aos labios dos fanaticos como um desafio á tragica italiana. Os que as conheciam, a ambas, discutiam apaixonadamente, ora dando a supremacia áquella que na sua voz cantada no ritmo da phrase, no choro contido a custo, consegue hypnotisar a multidão, vencer o bom senso que requer a verdade, subjugar os profanos e os descrentes até que o seu fragil corpo se estorça em gritos que arrepanham a alma, que a esfrangalham n’uma lancinante espectativa e lha atiram aos pés, frenetica de applausos, para se não dar em lagrimas e contorsões de hystería.

Outros desdenhavam a francêsa, vantajosamente apresentada a um povo que vive intellectualmente da França, copiador servil dos seus modelos, e aclamavam como a maior de todas, a mulher de verdade que a Duse se mostra, fazendo do palco uma escola de anatomia em que a sua alma escalpella com a precisão scientifica de um operador retalhando fibra a fibra o corpo que a doença ou a morte lhes trouxeram á mesa das operações.

Na frisa da direita, onde a Viscondessa e a amiga se sentavam entre os maridos, discutira-se arte, evocara-se nomes e situações em que os artistas favoritos se excediam a si proprios, e Bella lembrára Novelli, o artista que para ella, mais ainda do que a Duse, realisava o supremo ideal da arte moderna, a verdade, que é para os nossos espiritos fatigados de sentir e soffrer pela imaginativa o oasis onde nos comprazemos em descançar das orgias poeticas e romanticas de ha vinte annos.

Mas o Visconde não se sentia n’essa noite disposto a conversas que exigissem esforço de maior attenção, e a meia voz, n’uma visivel sobre-excitação de nervos que se mascarava em risos, notava figuras, recordava escandalosinhos que andavam na boca de todos, contava casos que faziam sorrir os companheiros, principalmente na descripção dos raouts que esse inverno inaugurára o Maximiano e onde os jornaes do high-life diziam encontrar-se quanto ha de mais selecto na nossa melhor roda.

—«A nossa é a d’elles, jornalistas—ria com soberano despreso—O que os faz enternecer é a abertura do bufete á meia noite e a possibilidade de um empregosinho disfarçado...

—«Temos então o Maximiano singrando com vento de feição no mar largo das grandezas?! Como a conselheira não exultará com a civilisação britannica das suas reuniões da moda!...—commentou João.

—«É plantio d’estaca, ainda está longe da floração...

—«É ridicula esta gente na sua mania imitadora!—disse, séria, a Viscondessa.—Nem o nosso meio, nem a educação, nem as fortunas, comportam essas festas inventadas pela aristocracia de Londres, que em divertimentos como em negocios não pode esbanjar tempo, e que n’um mesmo dia tem que assistir a muitas reuniões, sob pena de deserção.