A campainha electrica deu o signal de se levantar o panno, e os homens, excepcionalmente, apressaram-se a occupar o seu logar antes de começar o espectaculo, o que fez com que a tragica podesse logo ser ouvida desde a primeira scena. Desempenhava n’essa noite o papel de Magda, a mulher soberba de independencia e energia que a traição e a infamia do homem, em vez de quebrantar em baixesas de victimas, faz erguer n’um protesto de indignação.

A actriz, soberana da Arte, dominando em todos os países onde o capricho de artista a leva, sublime bohemia, que o mundo aclama exaltado, faz vivo, arquejante de interesse, esse typo symbolico da mulher de que a sociedade fez uma revoltada e que uma vez lançada fóra do ramerrão comesinho da existencia burguesa, impossivel se lhe torna a vida entre os seus, cujas ideias a amesquinham e irritam, que ella propria escandalisa com as suas palavras e modos, de pessoa que conhece dos preconceitos sociaes o bastante para avaliar a sua hypocrisia.

Quando a Duse (Magda, a grande cantora) entra já fatigada da lucta embóra coroada de loiros em que o dinheiro lhe não faz mingua, mas soffrendo da miseria affectiva em que se vê, como filha espúria de um mundo feito de harmonia e amôr, e vem recorrer á familia, como fonte inesgotavel de carinho, apenas encontra estranheza e hostilidade...

É então que a artista se revella extraordinaria de sentimento, flagrantissima de psychologia feminina, mais ainda do que nas scenas violentas de paixão, reconhecendo quanto differe da pequena irmã que na sua ingenuidade lhe mostra o que já fôra e nunca mais poderá ser, fatal sciencia do mal que uma vez adquirida não mais se pode esquecer nem limpar da memoria.

Magda pensa com horror no brutal egoismo do amante que, fugindo como covarde á responsabilidade do crime, o faz recahir esmagadoramente sobre os hombros mais fracos da mulher, que deixa de ser cumplice para se tornar victima.

A Duse, encarnada n’esse papel, deixa de ser uma pessôa que representa a ficção alheia para se mostrar ella mesma, elevada e transfigurada pelo proprio esforço e talento; tão depressa carinhosa e dôce, como mãe que encontra um filho perdido, junto da irmã, recebendo-lhe as confidencias, revivendo n’ella o seu passado de pureza e sentindo a devastadora mágua dos factos irremediaveis; logo, ironica e vaidosa da leviandade que escandalisa as burguezas puritanas que frequentam a casa dos paes; cheia de nobre dignidade quando recusa o marido que lhe impõe o abandono do proprio filho em respeito ao mundo; extraordinaria de paixão, quando responde com o seu despreso de mulher que só o talento, e um feliz acaso da natureza que lhe deu uma garganta privilegiada, salvaram da miseria e da vergonha de que tantas outras, por desajudadas, se não podem mais erguer. Que lhe importa uma sociedade á qual nada deve?!...

Mas não se tem impunemente uma generosa alma de mulher sequiosa de affectos simples, não se é uma ingenua de que a vida fez uma sincera revoltada; o grito de dôr e de remorso que lhe arranca a subita morte do pae é tão humano e desesperadamente sentido que se fica na duvida se é realmente para applaudir se para retirar respeitosamente, com a commoção propria de quem assiste a um drama de familia.

Logo no primeiro acto, que terminou com ruidosa manifestação, chamadas e applausos delirantes, o visconde sahiu com João, mas appareceu pouco depois, já só, no camarote da Candida, que o Braga prudentemente deixára, protestando urgentes negocios que o chamavam ao jardim d’inverno, a fallar com uns amigos.

Retirados para a penumbra do camarote, reconhecia-se, pelo gesticular phrenetico do visconde, que era de importancia a conversa em que elle punha todo o ardôr da paixão e em que ella o ouvia sem deixar de sorrir vagamente no seu sorriso incolor de imagem.

A baroneza d’Amieira vira Isabela e perguntára duvidosa a mr. William, que a comprimentava na passagem,—se realmente era ella, a querida criança?!...