—«Ou isto ou o socego da nossa casa!—respondeu João, passando-lhe o braço pela cinta, fatigado tambem de impressões, aborrecido de mentiras e convencionalismos.
—«Que longe já estamos d’essa miseria—accrescentou ella, reclinando a cabeça no hombro do marido—parece que vivemos em outro mundo.
—«N’um mundo que tu criaste, no reino da felicidade pelo amôr e pelo bem, querida.
—«Tenho já tantas saudades da nossa casa, que parece que sahi ha muito de lá. E tu?
—«Tambem eu, muitas, da nossa casa, da nossa familia, das nossas flores, de todas as coisas que lá nos interessam, e sobre tudo da alegria e do descanço que têm os nossos espiritos, crentes na obra redemptora que encetámos e da qual chego a duvidar cá por fóra ouvindo o riso escarninho de todos estes egoistas epicurianos, ou sinceramente desilludidos, como a Maria Helena.
—«D’essa é que tenho pena... quem me déra podê-la levar para a nossa republica de bons! O que terá feito o nosso velhinho agora assoberbado com todo o trabalho?
—«Coitado! O que terá andado do hospital para o asylo, do asylo para as obras!... Que fortuna foi obrigarem-no a sahir da igreja! É assim muito mais util á sociedade.
—«Não ha nada para certos caracteres se depurarem e redobrarem de energia como as injustas perseguições. Outros desanimam na lucta e ficam com a vontade quebrada, como a pobre Maria Helena.
—«Eu acho a na mesma, filha.
—«Não acho eu, desespera-me aquella indifferença resignada que até lhe fecha os olhos para o procedimento do marido com a Candida.