—«Disseram, sei tudo... Nesse particular não me têm poupado... respondeu com amargura.

—«Pobre filha! E não me despresas, não me tens amaldiçoado mil vezes?

—«Não; antes muitas vezes te tenho lamentado.

—«E tinhas razão, que eu não fui o que quizeram dizer. Verdade seja que tambem nunca fui dos mais infelizes.—Agora que tinha a certeza da benevolencia, voltava ao riso e á ironia, de que fizera habito.—O que me magoava era estar longe de ti e saber que te arrancariam da alma o affecto que me tinhas.

—«Isso não; em casa nunca se fallou de tal.

—«O tio Burns fez de conta que eu tinha morrido...

—«Pouco mais ou menos.

—«E tu não me esqueceste, nem deixaste de me querer?!

—«E porque é que me não escreveste, papá? Porque não quizeste saber mais de mim?

—«Primeiro, não poude... Quando sahi de Lisboa levava pouco dinheiro e pouca esperança... Tambem, tinha-me prevenido, se não encontrasse no Brazil as amizades com que contava para me tirarem de embaraços e ajudarem a recomeçar a vida, tinha o meu revolver com cinco tiros para o momento em que me sahisse da carteira a ultima nota de cinco mil réis. Sempre considerei essa somma a minima para dinheiro de algibeira. Depois, fui feliz, ganhei dinheiro, mudei de nome como quem muda a flôr que murchou na botoeira, e fui feliz—accentuou com sarcasmo.