—«Se me dá licença, com que prazer o farei, João!

Foi com verdadeira ternura que os dois se abraçaram, como se o amôr de Isabella os tivesse ligado pelos mesmos laços affectuosos.

É que João tinha realisado com ella o ideal do casamento, que precisa, para dar a felicidade ansiosamente procurada pelo homem e pela mulher, que o acaso de uma sympathia physica ou de um calculo grosseiro passageiramente ligou, que os dois se completem sem se absorverem, que as almas se transmittam mutuamente o seu sentir e o seu querer, sem que o espirito e a iniciativa propria sejam absorvidas, para que o fraco se não torne o martyr da vontade do mais forte.

Pouco depois, na sala de jantar de uso intimo onde a Viscondessa mandara servir, já senhora de si, n’aquelle bem estar e quasi alegria que se apodera logicamente dos que, cançados de ver soffrer, saem por momentos de junto dos doentes, conversava, contava coisas, procurava mesmo mostrar a sua graça um pouco mordente.

—«Ganhei muito dinheiro no Brazil—dizia—mas emquanto a fortuna me enchia os cofres de dinheiro suado por milhares de desgraçados, que existem para o unico prazer dos felizes, eu não philosophava sobre estas pequenas bagatellas sociaes, claro! Sonhava, como todo o brazileiro que se presa de civilisado, em voltar á Europa, em habitar Paris. Paris, minha Bellasinha—dizia descascando com subtil delicadeza uma laranja doirada, que lhe pôs galantemente no prato—é a segunda patria de todo o brazileiro que se honra. Portugal é a terra de gallegos, embora seja o dos nossos paes, embora seja a mais bella, embora seja o paiz que mais nos ama como irmãos, embora o Brazil seja ainda para o portuguez a velha terra amada, refugio de Portugal, onde se vive e fica como se nossa fosse, não a defraudando como colonisadores vulgares que, fortunas feitas, ala para suas casas! com a riqueza das terras que lhes deram asylo.

—«Ó papá, mas tu devias escrever isso, que é realmente justo, talvez se podesse fazer alguma coisa...—respondeu Bella sempre sincera, sempre misturando o idealismo com a prática.

—«Escrever para quê?! Cuidas que se convencem povos com livros?... demais, que auctoridade têm os portuguezes para protestar contra a franco-mania brazileira, se é mal que de cá lhes foi no sangue?!...

—«Pois sim, mas deve-se mostrar o mau caminho para que se emendem, cá e lá. Amar a França, comprehende-se, porque tem virtudes e superioridadas para isso, mas pô la acima de nós mesmos não deve ser, até por decôro proprio.

—«Pois sim, filha, mas vae-lhes lá dizer! Ninguem te lerá, minha encantadora ingenua! Manda-lhes romances francezes, falla-lhes de Paris, dize-lhes coisas em nome do cerebro do mundo civilisado, como ridiculamente alcunharam aquella deslumbrante cidade que mais não tem que fazer senão pensar a sério em alguma coisa!... Falla-lhes d’esse Paris que se diverte e que todos por lá adoramos, e que não é o verdadeiro Paris, não é o que trabalha e pensa, não é a capital da França intellectual e superior, mas o Paris galante que se prostitue como mulher facil, o Paris que nos dá nos seus livros o requinte da desmoralisação elegante, o Paris emfim que adoram os estrangeiros, como eu, que lá vivi annos inconfessaveis de prazer illegal.

—«E durante esses annos era uma vez uma filha, não pensaste mais em mim!... Que terrivel corruptora é na verdade essa Paris!...