Bella e João tinham fallado ao tio em Pedro d’Avellar, e, apesar de todo o seu passado de impolluta honradez, do seu puritanismo quasi cruel, tanta era a confiança no julgamento dos dois, que o velho inglez delegou nas suas mãos a solução do caso.

Quem sabe quantas vezes não teria o honrado velho lamentado o rigorismo que julga os outros pelo proprio caracter e não admitte as attenuantes das circumstancias, da educação, da hereditariedade, e as proprias differenças ethnographicas do meio em que nasceu e viveu o delinquente? Psycologo profundo, habituára-se a desculpar o pae observando em Bella, melhorados é certo pela educação e pela alta concepção do bem que herdara da mãe, os mesmos caracteres differenciaes que os tinham affastado primeiro, depois feito despresar o sobrinho.

O que n’um individuo lhe parecera defeitos imperdoaveis podera vê-los reviver no outro tornados virtudes.

Bella, feita arbitra da questão que mais de perto a tocava, foi de opinião que o pae se não rehabilitasse. «Para quê—dizia ella—se não é o respeito pessoal pela sociedade que o leva a isso e tão sómente o egoismo? Para que entregar esse dinheiro, ganho por um trabalho que nada lhes devia, e que iria ser esbanjado, como dinheiro de jogo, inutil ou criminosamente?

Respondendo á Viscondessa, que se inclinava pela rehabilitação, Bella opinava ainda:

—«É um preconceito, Maria Helena, e é preciso revoltarmo-nos contra elles. Não sou eu hoje exactamente o que seria amanhã se meu pae fosse proclamado a mais illibada das creaturas? O facto deu-se e a nossos olhos, de todos os que tenham consciencia, tem a sua desculpa logica. O que poderá ganhar a humanidade, com o dinheiro entregue a quem d’elle só tirará motivo de inutil goso, em existencias perfeitamente parasitarias, aos cumplices de todo o mal que o victimou?...

—«E aos que mais severamente me julgaram e abocanharam o meu nome, dize...—respondeu o pae.

—«E o que vale a honra que se compra a dinheiro, querida?

—«A Bella tem razão, prima—terminou João.—É preciso que se faça d’esse sentimento que nobilita o homem uma ideia mais alta. E é para uma nova maneira, mais humana, mais justa, e menos monetaria, de a comprehender, que é preciso dirigir a humanidade.