—«Disse lhe que não estava ninguem, e não foi mentira, não é verdade?

—«Mentira... não foi.—E pensou comsigo: para ti, elle não deve ser ninguem e a magua que imaginas sentir não é a da alma ferida no seu amôr, é a piedade natural por tudo quanto é soffrer...

Uma dôr mais violenta fez o moribundo levantar-se n’uma crispação de todos os membros e os seus olhos fixaram-se no fauteuil onde já tinha passado alguns momentos, quando a cama se lhe tornava intoleravel potro de tortura.

O dr. Ramalho e João levantaram-no em peso e ajudados por Bernardo assentaram-no na cadeira.

O corpo que a doença devastara e redusira a um pobre esqueleto contorcido, procurou na mais absurda posição o descanço a que aspirava; a cabeça descahiu-lhe para traz indo encontrar appoio sobre uma commoda Boule em que o Bernardo se apressara a collocar uma almofada, o tronco torcia-se e as pernas ficavam direitas, cobertas d’edredons e mantas.

Então começou o estertor, um rouquejar ansiante que já não era de vida, a bocca aberta, os olhos fixos, os dedos enclavinhando se em movimentos nervosos e inconscientes, o rosto macerado onde os beiços se arroxeavam, de um amarello de palha tão accentuado, que mais parecia mascara de morto modelada em cera velha. N’aquella hora pacificada já pela inconsciencia da morte, as linhas do seu perfil alongavam-se doloridamente, tornando-o a reproducção fiel do quadro que na sala apresentava a ultima agonia de um santo.

Ao primeiro grito de Bernardo todos se tinham levantado e acercado do grupo.

—«É escusado fazer-lhe nada,—disse o medico a meia voz—já não ouve nem vê.

—«Apertou-me agora a mão—respondeu o criado soluçante.

—«São contracções musculares independentes da vontade. Felizmente já não soffre.