—«Não, minha tia, não me obrigue a desobedecer-lhe—porque eu não deixo a Pillar, dizia, abraçando a pobre mãe lavada em lagrimas de reconhecimento.

Não a deixava de facto, nem de dia nem de noite, como expiando a morte bemfeitora que lhe arredaria aquelle unico estorvo ao seu sonho supremo.

Mas a morte foi vencida d’esta vez.

Quando o dr. Ramalho e o Vilhegas participaram aos paes que o grande perigo passára, elles não souberam senão chorar, tão verdade é ser o grande contentamento quasi doloroso pela intensidade do sentir.

Começou a melhorar devagarinho, n’um ateamento de vida que vem aos poucos, preenchendo as lacunas da memoria; mas á proporção que a luz se fazia no cerebro abalado da doente, um desespero sem nome se lhe ia pintando no rosto. Os olhos tinham uma expressão de desvairamento quando se fixavam na prima e no Emygdio pelos quaes manifestára uma subita aversão, que parecia desolá-los. Só os consentia no quarto, quando de todo não encontrava pretexto para os affastar. A Candida, principalmente, causava-lhe uma irritação profunda, que roçava pela repugnancia.

Os nervos, n’aquelle organismo depauperado pela doença, tornaram-se senhores absolutos e d’uma susceptibilidade que lhe chamava lagrimas aos olhos a cada momento.

Infantil por vezes, muito tolerante para os paes e para a velha Engracia que a acompanhava sempre como pessoa da familia, que quasi já o era pela quantidade d’annos que servia a casa, deixava que a boa velha a entretivesse como em criança a contar historias, visto que o dr. Ramalho a prohibira de todo o trabalho intellectual—nada que a emocionasse!...

—«Conta lá, Engracia—dizia a sorrir vagamente, os olhos esquecidos a fixar qualquer coisa—conta aquella historia d’uma princeza que morreu d’amôr...

—«Ora, ora! Sempre a mesma não tem graça, menina! Agora hade ser a do «Bernal Francez».