O dr. Ramalho—homem de trinta e oito annos, mais insinuante do que bello—fôra para alli logo ao sahir da Universidade, era a Pillar ainda uma criancita a quem beijava e contava contos. Vira-a crescer com o desvanecimento d’um pae ou irmão mais velho, não a considerando mulher senão quando ella lhe confessou, n’um impeto de franqueza, o seu enthusiastico amôr pelo Emygdio. Um d’estes amôres romanticos de rapariga, que sente um prazer morbido de sacrificada em offerecer ao homem, julgado infeliz, todas as alegrias e felicidades da terra. O dr. Ramalho tentára então tratá-la com ceremoniosas excellencias, o que a fazia rir perdidamente, terminando por lh’o prohibir.
É que a intimidade acarreta mais vezes affeições assim ternas e simples do que traz o amôr—paixão.
N’esta altura abriram-se as camaras e o dr. Ramalho, que era deputado, teve que sahir para Lisboa.
Á despedida animára os paes, dizendo lhes que, a pleuresia aguda estando vencida, ella ficava livre de perigo e bem entregue aos cuidados do collega; mas se sobreviesse qualquer imprevista recahida o chamassem logo. E terminava em confidencia—«o abalo physico foi tão forte e a fraqueza é tanta que ha muito a recear um desequilibrio nervoso, que temperamentos como o d’ella teem sempre mais ou menos latentes. Que era urgente uma radical mudança em toda a sua vida... Que apressassem o casamento. A realisação d’esse ardente desejo do seu coração havia de a curar.
Os paes concordaram de boa vontade em apressar o casamento; tudo quanto a filha desejasse elles fariam para a melhorar. Mas a doente sorrindo desdenhosa á proposta e olhando o Emygdio que a fitava ansiado e a Candida que se fingia desinteressada da conversa, respondeu que não tinha pressa, que havia muito tempo... queria que o João assistisse, queria melhorar de todo...
Desde esse dia é que o Vilhegas se mortificava a procurar o motivo d’aquella mudança da noiva, que lhe roubava assim a fortuna ambicionada quando elle já estava de mãos estendidas para a agarrar.
Redobrou de cuidados e de medicamentos, mas a Pillar, em vez de melhorar, de dia para dia se mostrava mais enfraquecida, mais desanimada e perto da morte. Quando os paes, cheios de dôr, fallavam em mandar vir o dr. Ramalho, ella oppunha-se, chorava, dizia que estava melhor, e que se elles o queriam chamar é porque a julgavam muito mal, em estado desesperado...
Sabia-se condemnada, e comprazia-se em ver o Vilhegas soffrer sósinho, na impossibilidade de a curar; e elle, vaidoso, preferia tambem ser o unico a tratá-la para assim ganhar o terreno que sentia esboroar-se-lhe sob os pés. Queria illudir-se, não vendo que a noiva tinha na face, quasi cadaverica, um sorriso torturado de quem tudo comprehendia; e morria vingada porque a sua morte era o castigo d’elle. Á Candida sabia bem que o não deixava; conhecia-o agora ambicioso e vulgar tal qual era, incapaz de se sacrificar por uma mulher ou por um interesse que não fosse exclusivamente seu.
Morria, a pobre, mais por ter visto morrer o seu ideal do que pela doença que lhe consumia o corpo.