IX
—«Visto isso, as festas encadeiam-se agora brilhantemente!? N’este diabo de terra é sempre assim. Passa a gente um inverno inteiro sem uma distracção que nos traga ao espirito refulgencias de luz, e depois vem as festas todas juntas, mal a elegancia da capital arriba a estas paragens...—dizia arrebicado, puxando os punhos engommados e estendendo o pé pequeno, calçado em botas de chagrin côr de tijolo, o Telles da botica nova.
D’um moreno terroso, magrinho, as orelhas a fugirem-lhe para a nuca, a pelle borbulhenta e quasi sem barba, fallando muito e depressa n’uma verbosidade saltante de nevrotico que se orgulhava de ser, assim como poeta incomprehendido, devorado pela Arte,—com A grande—e conquistador irresistivel.
—«É verdade, hoje e amanhã temos a romaria da Senhora do Monte, depois o pic-nic na Matta, e no fim, a coroar a série, o baile da viscondessa. Já tiveste convite?—respondeu o Vilhegas cavalgando uma cadeira, o chapéo molle deitado para a nuca e embrulhando um cigarro entre os dedos com minuciosa attenção.
—«Os Viscondes convidam me sempre, mas ainda não sei se os meus nervos me deixarão tolerar esse ruido.
Passava a mão pelos cabellos, encostando-se, nostalgico e sentimental, á secretária onde costumava escrever.
—«Homem, essa constante preoccupação é que te adoenta! Tens nervos como toda a gente; tens saude por sete, deixa te de manias.
—«Se eu não sentisse os terriveis symptomas que sinto!? O que quer dizer então este desespero de tudo e de todos, este odio ao banal que me torturiza e me distanceia da multidão, esta febre de movimento logo seguida das crises de passividade mais completa e absoluta?! Sou um neurasthenico, tenho a certeza.