Poderá ser, mas isso o que prova? Apenas o que já disse—que, infelizmente, o cultivo da inteligencia nem sempre acompanha a honestidade e que essas mulheres se subalternisam tornando-se criminosas como aquelles que condemnam, irmanando-se ás levianas que hôje o fazem, a maior parte das vezes por inconsciencia.

A mulher independente que tal fizer, não terá por motor a independencia mas tão sómente o capricho ou o temperamento, e em qualquer circumstancia, portanto, faria o mesmo.

Com respeito á proscripção da mulher erudita da familia, não é, não pode ser, uma regra. Assim como ha homens que, não obstante serem intelectuaes, são bons chefes de familia, o mesmo sucede ás mulheres.

Nem em Portugal temos o direito de pensar doutra maneira, tendo na ilustre mulher, que é uma verdadeira erudita, D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, o exemplo vivo do que se pode ser ao mesmo tempo como mulher de sciencia, como esposa e como mãe exemplar.

Haverá mulheres que, pela sua profissão, se vejam obrigadas a estar afastadas do lar e dos filhos uma parte dos seus dias?... É certo; mas quantas os não abandonam hôje, sem esse imperioso motivo? E quantas, tambem, estando sempre em casa, tendo por unica obrigação o seu amânho ou direcção, não mandam as criancitas, ainda mal desmamadas, para a sujeição das mestras?! Quantas?!... Quasi todas as mães sem oficio nem emprego, as da pequena burguesia, essas mesmas que não querem instruir-se mais, nem se querem tornar independentes,—exatamente para não terem a maçada de trabalhar...

Se, em geral, a mulher portuguêsa filosófa—que para trabalhar escusava de casar!... Já os senhores estão vendo o que lhes devem.

Depois, álêm dessas mulheres que mandam os filhos para os colegios embora não tenham emprego fóra de casa, o que diz ás que têm as suas visitas, os seus passeios, os seus divertimentos, e que por igual são por esses motivos imperiosos afastadas dos filhos, com menos utilidade, parece-me, do que pela doença de um semelhante ou pela retorta de um laboratorio?!

Poder-se-ha dizer que a mulher intelectual despresa os modestos mesteres do seu lar, quando a propria Clemence Royer costurava a sua roupa e entretinha os seus ocios trabalhando como qualquer críaturinha que não saiba ao certo em que parte do mundo está situado o paiz que tem a dita de lhe ser berço?

Não se póde dizer que a mulher erudita tem fatalmente de ser uma proscripta do lar exactamente quando o nome de um homem e duma mulher, ligados pelo casamento, se uniram para a sciencia, num triumfo para os dois sexos; exactamente quando as revistas francêsas nos trazem o retrato de Mr. e M.me Curie acompanhados muito burguezamente de seu filhito.