Mas sabeis porventura o que é sêr português, vós que falais a lingua que tem todas as energias do mar bravo e todas as doçuras dum poente entre pinhaes rumorejantes?...

Sabeis o que é sêr português, vós que pizais indiferentes uma terra tantas vezes embebida em sangue dos que luctaram até á morte para a tornar uma Patria livre?...

Sabeis o que é sêr português, vós que respirais o aroma das flôres que por toda a parte desabrocham em hilariantes coloridos, neste abençoado canto do universo?!...

Sabeis o que é sêr? português, vós que recebeis a dulcida caricia dum céo limpido, que passeais os vossos olhos sobre as aguas movediças que levaram os nossos antepassados á aventura gloriosa de descobrir novos caminhos e novos mundos maravilhosos, essas aguas que trouxeram, em paga de tanto esforço e tanta heroicidade, o oiro, as pedrarias, a riquêsa que deslumbrou o mundo e—ai de nós!—pela vaidade nos perdeu!?

Sabeis o que é sêr português, senhoras!?...

Pesa-me dizer-vos que, salvo algumas excepções, não o sabeis.

Que isto vos não cause enôjo, e que sobre a minha cabeça não cáiam as vossas ironias e odios!

Se vós o não sabeis, pouca ou nenhuma culpa tendes, que de longe vem o despreso pela vossa educação, que de bem longe vem o mal que nos está ligando como cadaver embalsamado prompto a entrar para o tumulo historico das nações que só vivem do passado.

Mas podeis ainda resistir. É tempo ainda de sacudir a apathia egoista em que vos conservaes ante todas as angustias colectivas do paiz, e mostrar ao mundo que o povo português não morreu ainda, porque as suas mulheres, as mães, têm sempre no coração a imagem estremecida da Patria, e ensinam os filhos a respeita-la, a ama-la mais do que á sua noiva, mais do que aos seus proprios pais.