Só vós podereis insuflar na alma dos moços o respeito pelo passado, o horror da situação presente, e a esperança consoladora num futuro melhor!

Num futuro que não está nos cursos complicados, nas repartições da burocracia, nos feitos das vanglorias militares com sobados africanos, mas nas oficinas, nas fabricas que nos poderão criar industrias exportadoras, no cultivo da terra que nos dá o pão do nosso sustento, o linho da nossa roupa, as fructas mais delicadas, o arroz, a cortiça, o vinho, as conservas, e tantissimas coisas que já hôje se exportam a mêdo e que poderão ser outras tantas fontes de riqueza, se a ellas se dedicarem inteligencias e dinheiro que mal parados andam umas e outro.

E nós, as mulheres, que temos nas nossas mãos a alma dos nossos filhos, que é como quem diz o futuro e a esperança, ensinêmos-lhes a despresarem o caminho das transigencias acomodaticias e a fugir do fatalismo musulmano com que temos acolhido, de braços cruzados, todos os desastres e toda a decadencia da nossa nacionalidade.

Preparêmo-los para que entrem na vida cheios de coragem e energia para o trabalho, renegando as miserias e as vergonhas de agora, e façam resurgir das ruinas duma sociedade que se anulou a si mesma, um Portugal novo, conscio de si, altivo e digno.

Nas vossas mãos, senhoras, está a rehabilitação das humilhações e vergonhas que ha dois seculos formam o triste fundo da nossa vida pública.

Nas vossas mãos está a morte definitiva da Patria Portuguêsa ou o seu resurgimento para o trabalho e para a vida.

Ponhâmos de parte as frivolidades que nos ensinaram a crêr que são a maior graça do nosso sexo, e sejâmos mulheres como o devemos ser:—criaturas conscientes e autónomas, companheiras e aliadas do homem, as verdadeiras educadoras de seus filhos.

Como a dama romana que mostrava os filhos como as unicas joias de preço que possuia, tiremos nós mais gloria em mostrar os nossos como cidadãos livres, sobrios e honestos, em vez de lhes darmos exemplos de ostentação e grandêsa que se não coadunam com a modestia da nossa terra e só provam a decadencia moral da sociedade em que vivemos.

Pensai nisto, senhoras, e ensinai-o a pensar a vossas filhas, porque tem mais interesse para o seu futuro e para o dos seus noivos do que o ultimo figurino, ou a ultima valsa tocada de ouvido ao piano.