Ninguem se habitúa á dôr, ninguem!, dígo-vo-lo eu, que tenho olhado com mais curiosa piedade para os que em baixo sofrem e maldizem a vida, do que tenho invejado e admirado os que em cima cantam a sua gloria e triunfo.
Pois bem, para debelar ou minorar o mal de que sofremos todos, os filhos duma sociedade que vive num perpetuo desequilibrio de elementos economicos e moraes, a missão da mulher, irmanada ao homem, libertada pela inteligencia, pelo trabalho e pela educação, é bem clara! O dever impõe-se-lhe de maneira indiscutivel e manda-a entrar resolutamente em acção.
Passaram, de todo, os tempos cavalheirescos. Presentemente ninguem se lembraria de nos exigir que arrancassemos das panoplias as espadas dos antepassados para armarmos os nossos filhos e mandá-los vencer qualquer sóba indisciplinado e bravío...
O perigo não será menor nas luctas que hôje sustentam os nossos soldados; a porção de coragem necessaria para tais campanhas, nos longinquos sertões ultramarinos, será a mesma ou mais talvez; mas a guerra deixou de ter para nós o mesmo sentido moral porque deixou de ter o imprevisto de duelo, em que era factor importante o valôr e a força individual, para ser uma carnificina de que são executores certos os que melhores e mais numerosas armas apresentarem, os que disposerem de mais conhecimentos e de mais dinheiro, tal como no comercio.
Quando as nações se degladiam hôje, escusâmos de esperar milagres e prodigios dos homens; os mais fracos serão fatalmente esmagados, embora com elles esteja a simpathia das almas enthusiastas, como aconteceu á desgraçada Polonia, á França enfraquecida pelo Imperio, á Grecia atolada na ultima decadencia, e ao Transvaal apesar do epopaico heroismo dos seus filhos. Embora como a Hespanha espere muito do orgulho e valentia dos seus soldados; como a China confie na incontavel multidão dos seus habitantes, ou como a Russia se iluda com a força ficticia do seu colossal territorio, povoado de analfabetos e de revoltados.
Tudo mudou com o tempo—ideias, costumes, maneiras de vêr e de proceder. O que aos nossos olhos parece hôje rasoavel e justo, seria aos olhos de nossos avós o mais absurdo dos atentados ao senso comum, o mais completo despreso pelas leis e convenções sociaes.
E, como tudo mais, a missão da mulher mudou tambem. Já não é de passividades e resignações como dantes! Da espectadora indiferente passou a ser figurante; entrou definitivamente na lucta—no trabalho de preparar a alegria e o socego do dia de ámanhã.
Não admira que assim seja porque, quando os campos de batalha são a propria sociedade em que vivemos e as armas são as ideias, a mulher tem o direito, mais, tem o dever de entrar na lide, e, ao lado do oprimido, do fraco, pugnar pela felicidade ou pela menor desgraça dos que sofrem.
No caso especialissimo que me impulsiona agora, ainda mais justa é a nossa intervenção, por isso que são mulheres as que sofrem e reclamam uma migalha para a sua fome.