omo n'essa noite uma febre intensa me tomasse, uma grande saudade, uma grande piedade, me invadiu o espirito, por todos os tristes, por todos os humildes—os infelizes da terra...
No principio da doença, quando o corpo começa de sentir o embate grosseiro do mal, que o vencerá; quando o frio nos arrepia a carne, n'um estremecer sangrento, n'um espicaçar de venenosas agulhas; vem-nos um profundo egoismo, um completo esquecimento dos outros. Na contemplação das nossas dôres, tudo mais desapparece sem nenhum valor.
Depois, a intensidade da febre espiritualisa-nos, a alma desliga-se do corpo extenuado e sóbe a mais alto. O proprio soffrimento se desdobra n'uma vaga e serena piedade por tudo o que existe, por todos os que choram...
Então, n'uma d'essas horas de sonho e de nitidas recordações, eu lembrei pobres almas inferiores, tristes desvairamentos em grandes espiritos, máguas inconfessadas—que a minha alma conheceu ou presente nos humildes, nos desprezados...
D'alguns me lembrei fallar; outros ficaram na piedosa tristeza da minha memoria—não porque as suas lagrimas me pareçam menos dignas de serem recolhidas, não porque sejam menos estimados, mas porque quasi nada poderia interessar aos outros a repetição d'essas singelas historias de vidas simples, monotonamente eguaes pelo soffrimento.
Phantasmas sympathicos ao meu espirito, elles vieram todos rodear o leito, onde, febril, o meu corpo fatigado cahia.
A minha cabeça dorida abysmava-se n'um confuso recordar de cousas passadas.