—«Não; não me ofendeu. Pode ir.
Tinha pressa de se encontrar só. Dizia bem: o seu coração não estava ofendido; estava despedaçado, calcado aos pés, por{252} aquella que tinha sido o encanto da sua existencia antes de a conhecer e depois não fôra senão motivo para desilusões e evocações pungentes.
O desespero da sua alma contrastava com a serenidade da lua, em crescente, que se erguia manso e manso num céo translucido, ainda tingido de oirenta púrpura no poente, e era como um alfange de oiro pronto a vibrar-lhe o último golpe.
Soluçava; já não podia mais.
Pela janela gradeada, os olhos nublados de lagrimas mal distinguiam as linhas dessa paisagem, revista em cada dia durante anos, e que umas vezes lhe parecia grandiosa no seu aspéto cenografico, outras banal e triste, conforme as impressões do seu espirito, tranquilo ou perturbado.
Sentia um agro prazer em chorar, e em soluçar como uma criança, numa desconsolação de abandôno e de desespero. O que fôra o seu passado? Apenas uma existencia sacrificada ao convencionalismo ou ao egoismo alheio. O presente era essa amargura de se sentir desamparada das suas proprias ilusões—as últimas companheiras dos que mais sofrem.
O futuro... Santo Deus! o que lhe traria o futuro se não lhe trouxesse o hábito de viver para si mesma?!...{253}
Madre Angelica, prevenida pela Ama-Rita que vigiava sempre a sua menina, veiu têr com ella, arrastando-se vagarosamente ao longo do dormitorio, como uma sombra que o luar fazia destacar.
—«Soror Manoela, o que tem, o que lhe fizeram para estar assim agoniada?!...
—«Ai, Madre Angelica!... Estava ahi? Ainda bem, ainda bem que a tenho junto de mim neste momento. Julguei-me olvidada de todos—até de Deus!...