E a freira, sinceramente surpreendida na sua credulidade ingenua:
—«O que me diz?! Então a Christina não é a sua filha?... Será possivel?!...
—«Não é!—volveu Manoela, sobreexcitada, não reparando sequer na dúvida da velha Madre.—Não é, não é a minha filha, que alimentei do meu proprio sangue, que sahiu do meu corpo como a flôr sai da planta. É uma estranha, é uma alma gelada, que não compreendo nem estimo. Veja-a, veja-a bem, Madre Angelica; veja-lhe bem os olhos frios e crueis, os seus olhos metalicos como os do outro! Veja-lhe o riso escarninho, que é delle... Consulte-lhe a alma soberba e impiedosa, como a da avó... Avalie a minha desgraça, Madre Angelica! Tenho uma filha que não tem nada, que não é nada de mim!... E despreza-me, a criaturinha!...—terminou num riso cascalhado, que era uma derivação do choro histérico que a tomara.
—«Socegue, minha irmã. Então!?... Isso não é proprio de si...
—«Sim, tem razão! Eu não devo sofrer assim, mas que fazer?! Não posso, não posso habituar-me a esta desolação; querer amar a minha filha tal como é e não como a sonhei, e não poder, não poder!...{256}
Falou longo tempo, num soluçar entrecortado que a esfrangalhava e halucinava, e só muito tarde, conseguindo levá-la para a sua céla, onde estavam mais á vontade, Madre Angelica lhe poude insuflar um pouco de coragem e resignação para vencer aquella crise dolorosissima.{257}
[VII]
O irmão de Manoela respondeu afirmativamente á carta muito digna que ella lhe escrevera, consentindo em receber Christina como se fôsse uma filha.
A morte da mãe deixara-lhe um vacuo imenso no grande casarão, onde só de quando em quando os irmãos, já casados e cada um em sua terra, o visitavam por ceremonia.
«Christina pode vir—dizia na sua carta á irmã—quando quizer, e na certeza de que já a estimo como filha.