Partiu, acompanhada de Ama-Rita, que apenas levava o encargo de a entregar ao tio{259} e voltar logo, pois essa é que, decididamente, não abandonaria mais a sua menina.

Para ella a menina era Manoela, que nunca deixava de revêr como fôra: a filha adótiva do seu coração, a estranha que tomara na sua alma o verdadeiro logar da filha morta á nascença.

Mas bastante mudara nos últimos tempos, apesar della se não querer convencer do que via: a mulher que pouco tempo antes ella encontrara, senão a linda rapariga que vira partir, lavada em lagrimas, crucificada de dôres, pelo menos uma mocidade ainda florescente, estendendo-se por um outôno que se anunciava formosissimo.

Em poucos mêses Manoela fez uma diferença que saltava aos olhos e afligia toda a comunidade, que só nella fundava as suas esperanças e as suas alegrias. O cabelo embranquecia-lhe nas fontes; a péle amarelecida, enrugava-se impercétivelmente a princípio, mas visivelmente nos últimos dias em que umas olheiras inchadas lhe davam no rosto o aspéto desolador da doença que lhe fizera do coração uma pobre maquina sem regulamento.

Podia dizer-se que ia morrendo aos poucos, das feridas incuraveis que nelle sentira, durante toda essa existencia de eterna sacrificada, em{260} que a alma se lhe esfacelara pelos agudos e impiedosos espinhos do egoismo alheio.

Com a doença de Manoela, entrou o desânimo em todas as almas e a morte encontrou facil caminho entre aquelles organismos depauperados e sem resistencia moral.

Todos os mêses havia mortes no convento: ora as freiras, ora as velhas criadas e recolhidas, lá se iam, umas atraz das outras, em debandada desoladora. E para ella, a morte que rodeava agora como companheira inseparavel a velha casa conventual, tão suavemente serena e risonha, era um aflar de azas sinistro que lhe deixava na alma o luto de toda essa querida familia espiritual, a unica que verdadeiramente estimava agora.

O convento acabava dia a dia, hora a hora,—sentia-se, numa halucinação de presentimentos e presagios tetricos, avisos sobrenaturais e factos estranhos que causavam a perturbação e o pânico de todas aquellas criaturas enfraquecidas e mais ou menos doentes, senão do corpo pelo menos da alma.

Assim, a sineta que no claustro de cima apenas era tocada quando alguem na casa entrava na agonia, para que as almas se recolhessem com Deus e na sua ânsia de bem merecer auxiliassem a que estava para partir, a desligar-se, sem pena nem pecado, desta{261} vida defeituosa e amarga, começara uma tarde, á hora calma do Angelus, a tocar freneticamente conclamando toda a comunidade, que se olhava espavorida e convicta do tragico aviso.—Era certo: aquella sineta, que uma só vez tocara assim, segundo constava, anunciando a morte de duas freiras em cheiro de santidade, anunciava agora a morte, o fim da santa casa que fôra abrigo de tanta pobre alma de mulher revoltada ou submissa, mas todas crentes numa eternidade de venturas de que não tinham tido na terra a compensação.

E todas ellas, velhas e novas, míseras sombras duma outra idade ou raparigas que a educação conservara afastadas do tempo em que vieram ao mundo, todas curvaram a cabeça á convicção de que a campa as chamava, de que era a morte que as libertaria em breve. Sim, ellas estavam prontas, mas quanta tristeza nesse fim de existencias que já mal se arrastavam, numa vida que não compreendiam já!...