—«Ai, Manoel, pobre rapaz, desgraçado!... Se o Senhor te visse, estavas perdido neste mundo e no outro!...

Elle olhava-a emparvecido, numa confusão labirintica de ideias, que não explicava nem compreendia.

—«Ouves, Manoel?—continuava a velha bruxa.—Eu sou tua amiga, não te quero vêr perdido. Olha, escuta, toma sentido no que te vou dizer: O Senhor vai perguntar quem corre mais, para lhe entregar a caldeirinha que veiu hôje do inferno para a nossa missa. Tu hasde dizer que corres como o pensamento, agarra nella, e foge. Corre quanto podéres! Só estarás em segurança agarrado á corda do sino da igreja, depois do galo preto romano cantar pela terceira vez depois da meia-noite. Corre, corre quanto podéres, e livra-te de olhares para traz, oiças o que ouvires, sintas o que sentires. Ainda que te chamem pelo teu nome, não olhes nem páres,—olha que depende dahi a tua salvação e a tua vida!

Afastou-se saltitando, outra vez luzinha, a misturar-se com as outras na dansa macabra.

O Manoel ficou estarrecido, mas o proprio mêdo lhe deu energia bastante para responder com segurança á pergunta que o homem vermelho{64} fazia em voz tão formidavel e soturna que toda a natureza estremeceu de pavôr e os corvos no visinho cemiterio grasnaram agoirentamente.

Tendo gritado, no meio de vozearia geral, como lhe ensinara a Gertrudes Zarôlha,—«corro como o pensamento!»—agarrou na caldeirinha magica que estava no meio da roda e desatou a correr com quanta força tinha, em diréção á igreja, cujo campanario singelo donde pendia a corda do sino era agora a sua unica esperança de salvamento.

Mas, fosse porque o conhecessem pelo andar ou fosse por penetração diabolica e subtil, o que é certo é que, logo que voltou costas, uma grita ensurdecedora lhe chegou aos ouvidos. Sentiu-se perseguido por toda uma canalha de demonios, fúrias vêsgas e feiticeiras esguedelhadas, pequeninos trasgos e enormes gigantes, que ardendo em sêde do seu sangue e da sua alma christã lhe corriam no encalço.

Via-se quasi perdido, sentia-se quasi agarrado por enormes braços descarnados e com unhas aduncas e enclavinhadas, que se lhe cravavam na carne como tenazes... Chamavam-no pelo seu nome, ouvia coisas pânicas, e ora o insultavam com palavras que se desprendiam como pedradas de funda, ora o seduziam com promessas tentadoras.{65}

E dizia mesmo que essas vozes sedutôras, que se misturavam ás outras brutais e agressivas, eram ditas pela bôca vermelha e fresca da Maria...

Mas, fiel á recomendação da Gertrudes, corria numa ânsia ofegante, num desespero de loucura. Na cabeça enfebrecida duas unicas ideias se lhe espetavam, como navalhas agudas:—a Próspera abraçando o Senhor, como lhe chamara a Zarôlha, e o campanario humilde onde estava a sua salvação.