Cuidava escrupulosamente do amânho interior da nossa casa, não deixando as criadas levantar mão dos serviços, com uma disciplina que invejariam muitos instrutores de recrutas. Rezava as orações obrigatorias de cada dia;{89} cabeceava á bôca da noite, antes de se acender o candieiro para o serão; e depois de espertar era a última a deitar-se em casa, depois de vêr todas as portas e apagar todas as luzes—não, fôsse o inimigo sonso que se lhe metesse algum ladrão em casa, ou as raparigas se descuidassem com o lume! De manhã era a primeira a madrugar, para a mesma labuta de todo o ano,—que era afinal a de toda a sua vida.

De sabedorias para si, importavam-lhe pouco, mas queria-as para mim, que no seu entender devia tornar-me uma verdadeira menina educada: tocando piano, ataviando-me com geito de quem sabe, que não privasse com as raparigas da rua, que lêsse romances para têr umas luzes de historia, que bordasse a matiz e a escama de peixe ou a casca de castanha, cantasse ao piano em francês ou italiano, soubesse, emfim, estar numa sala...

Duma tão grande infelicidade que a unica filha tinha modos de rapaz, detestava o piano, adormecia a lêr os mais pateticos romances, e fazia a cabeça doida ao padre José, que nos dizia a missa na capela da casa e toda a semana carregava com a pesada cruz de nos iniciar nos misterios da lingua portuguêsa.

Ralhavam comigo, mas, por mais que ralhassem, não conseguiam fazer-me compreender a{90} possibilidade de estar perfilada numa cadeira a receber as visitas na sala, como via as filhas do recebedor e as do medico da vila quando vinham á nossa casa. Francamente, abominava as adoraveis meninas, que ficavam com sorrisos murchos ao cimo da escada, recusando-se a seguir-nos á quinta com mêdo de estragar os lindos vestidos á moda, esses vestidos aparatosos, cheios de fitas e rendas, que usam na provincia as meninas ricas.

Eu, que era uma selvagem incapaz de tolerar um colête justo ou umas botas apertadas, que pedia para que me cortassem o cabelo para não sofrer os penteados, que só gostava dos vestidos depois de afeitos ao corpo pelo uso, olhava com verdadeiro assombro aquellas meninas modelos.

Ás vezes, a minha bôa Maria Augusta tentava apertar um pouco os cordões do colête,—«para me tornar elegante»—mas eu protestava tão energicamente que tinha de desistir logo, dizendo-me arreliada:

—«Ó menina, é preciso sofrer para sêr formosa!

—«Pois sim, espera por essa... Eu nem quero sofrer nem quero sêr formosa!

Uma vez levantei-me cedo, estava uma manhã gloriosa de inverno, deste inverno tão nosso, em que o azul do céo é limpo, puro e{91} transparente como se fabricado fôsse pelo mais escrupuloso dos artistas e da mais preciosa das porcelanas.

Em casa apenas as criadas traquinavam na cosinha, encetando a labuta do dia, e a Maria Augusta abria janelas e portas para a limpeza do rez-do-chão.