Atraz delle, sahiu do carro uma pequena de cinco anos, parecendo têr o dobro, nem bonita nem feia, extravagantemente vestida á inglesa de torna-viagem, e toda doutoral nas suas frases. Fôra a última a nascer, depois de bastantes anos de casamento, em que todos os filhos lhes tinham morrido; por isso era respeitada como milagre vivo.{104}
Por fim, quando os criados tinham carregado uma aluvião de malas, necessarios, sacas de linho bordadas, e tanta coisa que nos fazia arregalar os olhos de espanto, a nós pobres pequenos selvagens, que, a respeito de viajar, iamos ás quintas proximas pelo tempo da vindima e até ao rio em folgada pescaria uma vez por festa. Depois começou a sahir um prodigioso chapéo de palha envolto em gaze côr de castanha, e, a seguir, um corpo enorme vestido com um guarda-pó de xadrez em largas mangas perdidas.
Era monstruosa a minha tia! Nunca lhe poude dar este nome porque o meu espirito se recusou sempre ao convencimento desse parentesco, que repugnava á minha afétividade.
Alta como um carvalho e gorda em proporção, o que a tornava ainda mais exotica entre gente miuda como é a nossa. Talvez não tivesse sido feia, mas as feições estavam enterradas em tecido adiposo, e só naquelle deserto de cara branca brilhavam uns olhos metalicos e frios que nenhum sentimento conseguia adoçar. Quando os poisava na miudinha figura de morenita que eu era então, toda a minha carne se arrepiava numa tremura e os meus nervos vibravam desagradavelmente.{105}
Trazia o cabelo, já a embranquecer, cortado pelo pescoço,—á estudanta, diziam por lá as pequenas da aldeia—modos autoritarios, voz de comando, andar de granadeiro, e uma lingua de trapos que ninguem entendia.
Mãos e pés não tinham fim, e o seu desembaraço irritava-me pela mania que tinha de fazer tudo e melhor do que ninguem, de falar alto e atirar os braços para a frente num gesto resoluto de jogador de box.
Meu pobre tio admirava-a e escutava-a, submisso, como a um oraculo, nada fazendo sem a consultar.
Sobretudo nenhuma delicadeza feminil, muito orgulhosa da sua superioridade e senhora da sua pessôa, dizendo mal—de pórtuguês, e tudo quanto é pórtuguês, muito estupidos!...
Dizia-se filha dum banqueiro da Havana prodigiosamente rico, mas tais riquezas—como as de Pedro Cem—perdiam-se na sombra da lenda.
Contava coisas estupendas de seu papá, descendente em linha réta de grandes de Espanha, pelos vistos, dos soberbos companheiros de Colombo... A sua mamã, essa era uma aristocratica lady, viuva dum membro da aristocracia britanica, que não se dedignara de aliar o seu puro sangue azul{106} ao de descendente dos audazes conquistadores...