Quando nós, os pequenos, soubemos o que significavam tais misterios, já tudo estava resolvido. Eu desanimei; os meus irmãositos choravam pelos cantos, e chegavam-se a mim para os animar. O Miguelsinho, que era o preferido da mãe, tentou discutir tal resolução e pedir para que me não entregassem á estrangeira, mas ficou desiludido da sua influencia porque o chamaram pateta e prohibiram-lhe terminantemente de se meter onde não era chamado.
Cá por mim, nada pedi nem objétei; fechei-me num mutismo que exprimia já, mais do que as palavras, a onda de revolta que se me ia formando no coração.{111}
Sucumbi. Já não tinha gosto para nada: não voltei á quinta nem procurei mais a Cacilda, para a cavalgar como os rapazes e percorrer os caminhos tão conhecidos e amados. Os meus amigos do pombal sentiram por certo a minha falta, como os da capoeira a tinham já sofrido...
Nunca mais procurei as pequenas minhas companheiras, mas via-as por detraz dos vidros da janela dansarem em rodas, ouvia-lhes as cantigas joviaes, percebia que jogavam a laranjinha ou faziam de senhoras visinhas... E ficava-me indiferente, já alheada da sua alegria, afastada para sempre do seu convivio, desprezando inconscientemente a sua humildade. Era como aquellas pessôas, quasi na agonia, que já não são deste mundo nem o que nelle passa lhes interessa—e ainda não entraram no supremo descanso da morte.
Decerto que muitas vezes pensara em sahir da aldeia, percorrer novos caminhos, vêr paisagens inéditas, terras lindas de encantar como as sonhava por esse mundo fóra!... Invejara, não poucas tambem, os vagabundos que passavam pela aldeia e nos contavam coisas estranhas para os nossos espiritos, e de que elles traziam nos olhos um vago assombro... Devaneando, o Miguelsinho e eu, quantas vezes não conversamos sobre a divertida{112} existencia dos ciganos, que andam de terra em terra com os ursos e os macacos e sob a sua esfarrapada tenda têm todo o seu aféto e interesse no mundo?!
Sahir dalí... ir viajar... vêr paisagens novas em folha para a minha retina, terras desconhecidas, gentes exoticas, seria uma libertação, mas ir na companhia duma pessôa que nos era tão particularmente antipatica, confiada á sua guarda, colocada sob a sua autoridade, isso nunca o podia têr sonhado, nem como pesadelo me assaltara jámais o espirito.
Não chorava, porque a profundeza do golpe me revoltou até quasi á loucura. Desde o dia em que me deram a noticia do meu destino, deixei de sêr a criança que fôra até ahi para me tornar numa sombria criatura, raro abrindo em risos a sua alma ingenua.
Tinha doze anos, cheios de saude e alegria; era uma perfeita criança, sem sombra de malicia a macular-me o espirito—uma pequena criatura muito humana e muito bondosa. Fui depois uma pobre alma torturada, contorcida em odios, desprezando e desconfiando de tudo e de todos.
O mundo deixou de sêr para mim uma festa cheia de sol para se tornar num algido subterraneo.{113}
Hãode dizer que exagero, que o caso não era para tanto, nem a mulher de meu tio merecia o repulsivo odio que lhe votei... Mas que querem?! Não ha animais que odeiam uma determinada criatura, numa repugnancia instintiva, sem aparente razão?