Mas isso, já o devia saber, era menos facil do que sujeitar uma aguia a viver numa capoeira.

Uma tarde, encostava-me aos vidros da janela do meu quarto quando na rua vi passar o Chico.{157}

Sorriu-se para mim e perguntou-me se estava doente, tão demudada e triste eu lhe parecia. Mal o vi, uma onda de lagrimas me subiu aos olhos e retirei-me soluçando da janela, sem atinar com palavras com que respondesse á sua surpresa.

Nesse dia chorei sempre, e já a noite ia adiantada quando me levantei da cama, acendi a vela, e assim mesmo, em camisa e descalça, fui escrever ao Chico a contar a minha dôr, dizendo-lhe o meu desespero, e pedindo-lhe que me livrasse daquella prisão onde em breve morreria, como a Mariquinhas,—estava certa! Escrevia, pela primeira vez, tudo quanto sentia, vertiginosamente, sem pesar as palavras, surpreendendo-me a escrever melhor do que se falasse...

Depois da carta escrita e arrecadada debaixo do travesseiro, eu puz-me a imaginar o que faria o Chico. Certamente não me abandonaria á minha sorte, correria em meu auxilio como paladino doutras eras...

O que uma cabeça de rapariga arquiteta aos dezeseis anos na sua primeira noite de insónia!...

Toda a minha esperança era o Chico—se elle me faltasse, o mundo acabaria para mim!

De manhã reli a carta, que me pareceu ainda dizer pouco do que sentia, e tentei{158} escrever outra—que me sahiu peor. Meti-a no bolso e fui ao jardim com ideia de a entregar ao meu amigo, mas um invencivel acanhamento fez-me voltar para casa.

A Eulalia, na cosinha, parecia adivinhar a minha intenção, e disse-me, maliciosa, muito habituada a fazer de capa ás meninas que servira—«O menino Chico está aqui em casa da S.ª D. Emilia, entrou ha pouco para lá.

E eu, fingindo uma grande serenidade, que ella bem conheceu ser falsa:—«Ah, sim?! Eu queria entregar-lhe uns papeis... uma carta... que a Mariquinhas deixou para elle.