«Obrigado pela sua carta e pela confiança que deposita em mim. Escreva aos seus pais contando-lhe a sua tristeza e mande-me a carta que eu me encarrego de lha fazer chegar ás mãos. A Senhora D. Emilia e a mamã acrescentarão algumas palavras para dar força ás suas queixas. Todos nos interessamos pela nossa amiguinha Raquel e temos muita pena de a vêr sofrer. Creia na dedicação e aféto do seu amigo—Chico.»

Não era muito para o que eu tinha sonhado, mas era alguma coisa, era o apoio moral que me faltava.

Sentia-me protegida e amada, e isso era o bastante para me tornar feliz. Relia ainda a carta, que ia meter no seio, quando a porta{160} do quarto se abriu de improviso e a cara detestada da minha prima apareceu perguntando-me, trocista:

—«Então a menina recebe cartas de namorados e não diz nada á gente?!...

—«Vai-te daqui para fóra!—gritei desesperada.

—«Ah, estás assim soberba com o teu Chico?! Pois eu direi á mamã, deixa estar!

—«Importa-me pouco a tua mãe, dou-lhe tanta importancia como a ti—e, empurrando-a com violencia para o corredor, fechei a porta por dentro.

A rapariga vingou-se: foi levantando um grande alarido de queixa que tudo contou á mãe. E não tinham decorrido talvez cinco minutos sem que a abominavel criatura não estivesse a bater com violencia á porta, gritando como possessa para que lha abrisse.

Com uma serenidade de que ainda hôje me surpreendo, fui abrir, e ficando entre portas perguntei, sem me alterar, o que desejava.

—«Oh! Não ter vergonha! Menina dizer a mim você recebeu carta dum maroto e pergunta o que mim quer! Vêr esse carta já! Vergonhas, vergonhas, dar maus exemplos a meninas! Quando vier seu tio mim dizer tudo!...