Em que consiste a lavra do tabaco: e de como se semea, planta, e alimpa; em que tempo se hade plantar.
Toda a lavra e cultura do tabaco consiste por sua ordem em se semear, plantar, alimpar, capar, desolhar, colher, espinicar, torcer, virar, ajuntar, enrolar, encourar, e pizar: e de tudo iremos fallando nos capitulos seguintes. E começando neste pela planta: semea-se esta em canteiros bem estercados; ou em queimadas feitas nos matos, aonde ha terra conveniente para isso, e apparelhadas no mesmo anno, em que se hade semear. O tempo, em que commummente se semea são os mezes de Maio, Junho, e Julho: e depois de nascida a semente, nasce tambem com ella algum capim vicioso á planta innocente o qual se tira com tento, que se não arranque por descuido com o capim vicioso a planta innocente.
Tendo a planta já palmo, ou pouco menos de altura, se passa dos canteiros aonde nasceu, para os cercados, ou curraes, aonde se hade criar: cuja terra, quanto mais estercada, he melhor. Mas se nos ditos curraes morou por muito tempo o gado; hade se tirar antes alguma parte do esterco, para que a força delle ainda não cortido do tempo, não queime a planta, em vez de ajudar. Distribue-se a dita terra em regos com riscador, para que a planta fique vistosa. A distancia de hum rego de outro he de cinco palmos: e das plantas entre si he de dous palmos e meio, para que se possão extender, e crescer folgadamente, sem huma ser de embaraço á outra. Planta-se em covas de hum palmo, quanto cava a enxada mettida, e estas se enchem de terra bem estercada: e, com vigilancia, e cuidado, se corre a dita planta todos os dias, para ver se tem lagarta; e esta logo se mata para a não comer sendo tenra. Os inimigos da planta são ordinariamente além da lagarta, a formiga, o pulgão, e o grillo. A lagarta em pequena corta-lhe o pé, ou raiz debaixo da terra: e em crescendo corta-lhe as folhas. O mesmo faz tambem a formiga: e por isso se poem nos regos, aonde esta apparece, outras folhas de mandioca, ou de aroeira; para que dellas comão as formigas, e não cheguem a cortar, e comer as do tabaco, que sendo cortadas desta sorte não servem. O pulgão que he hum mosquito preto, pouco maior que huma pulga, faz buracos nas folhas; e estas assim furadas, não prestão para se fazer dellas torcida. O grillo, em quanto a planta he pequena, a corta rente da terra; e sendo já crescida, tambem se atreve a cortar-lhe as folhas.
Sendo já a folha bastantemente crescida, se lhe chega ao pé aquella terra, que se tirou das covas em que foi plantada, daquella parte, que ficou arrumada mais alta; porém, em tempo de inverno, não se aperta muito, porque toda está humida; no verão, aparta-se mais para que a terra a defenda, e a humidade, posto que menor, lhe dê o primeiro alimento. E isto faz quem a planta. Estando a planta em sua conta, com oito, ou nove folhas, conforme a força com que vem crescendo, se lhe tira o olho de cima, ou grelo, antes de espigar: o que por outra phraze chamão capar. E porque faltando-lhe este olho, nasce em cada pé das folhas outro olho; todos estes olhos se hão de botar fóra; (e a isto chamão desolhar) para que não tirem a sustancia ás folhas. E esta diligencia se faz pelo menos de oito em oito dias: e mais frequentemente se visitão, e correm os regos, para tirar o capim, até estarem as folhas sazonadas: o que se conhece por apparecer nellas humas nodoas amarellas, ou por estar já preto por dentro o pé da folha, o que commummente succede ao quarto mez depois de postas em suas covas as plantas.
CAPITULO III.
Como se tirão, e curão as folhas do tabaco; como dellas se fazem, e beneficião as cordas.
Quebrão-se as folhas da hastea como talo, e juntas em casa se deixão estar assim por vinte e quatro horas, pouco mais ou menos: e logo, antes de se esquentarem e secarem, se dependurão duas a duas pelo pé, mettidas entre a palha (de que constão as casas, em que se beneficião) e as varas, ou em outra parte, aonde lhes dê o vento, mas lhes não chegue o sol: porque se este lhes chegasse, logo se secarião, e perderião a sustancia. E tanto que estiverem enxutas em sua conta, que pouco mais ou menos será depois de estarem assim dependuradas dous dias; se botão no chão, e se lhes tira a maior parte do talo pela parte inferior, com o devido cuidado, para que se não rasguem com o desvio do talo: e a isto chamão espinicar. E então se dobrão pelo meio as melhores, que hão de servir de capa para a corda, que se hade fazer de todas as mais folhas. E advirta-se que as folhas, que se tirárão em hum dia, não se hão de misturar se não com as que se tirarem no dia seguinte; para que sejão igualmente sazonadas: e, se não forem assim, humas prejudicaráõ ao bom concerto das contas.
Curadas as folhas, e tirado já o talo como está dito; dellas se faz huma corda da grossura quasi de tres dedos. E para isso haverá roda, e hum torcedor entendido, para que a corda fique unida, igual, e forte, e a traz delle estará outro colhendo a torcida sobre hum páo, ou sobre o apparelho, como qualquer outra corda simples, e não como as que se fazem de cordões, e junto do torcedor são os rapazes, que dão as folhas para se torcerem em corda.
CAPITULO IV.
Como se cura o tabaco depois de torcido em corda.