Como ha de pois a Historia olhar o athleta ousado?

Pesando com criterio os factos do passado,
Seguindo passo a passo o luminoso accesso
Da Sciencia e do Progresso.
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Ha muito que na Europa o sopro percorria
Da clara discussão da sã philosophia.
Desde o seculo doze, a duvida christã,
Buscava escalpellar o craneo de Satan.
Pierre d'Abelard examinara a crença,
E via já na fé uma utopia immensa.
Breve, Thomaz d'Aquino, imigo da Rasão,
Antepunha ao Progresso a fera inquisição.
Mas Bacon, um titan, repelle a fé-cahotica,
E dando luz á Optica
Recebe uma intuição da Sciencia positiva.
Então larga a rotina, e só na lide activa
Depoz a base firme á ideia demonstravel.
Foi elle um ser vidente, e concebeu provavel,
Toda a gloria vindoura; em seu nobre labor
Meditava o progresso enorme do vapor;
Mas como em sua frente a infamia não assoma,
Foi um martyr da Sciencia, e victima de Roma,
A eterna desbragada, a eterna prostituta
Que as gerações enlucta.

Mas o germen vingou; surgiu em breve a imprensa,
Excelso meteoro, a realidade immensa
Que faz de Guttemberg um centro luminoso!
Ia baquear em terra um deus medonho e iroso;
Ia a Ideia pulsar na mente e força do Homem!
E como as trevas somem
Os raios de um bom sol, assim o novo invento
Abria par em par a estrada ao Pensamento!

O Genio eternisava em breve a Pomponace,
E o forte Rabelais batia face a face
A escolastica, e a lei theocratica e politica,
Bem como o abuso annexo á concepção juridica.

A Patria lusitana, a joia do Occidente
Á Europa mostra então o poeta Gil Vicente,
Que açouta o clero hostil com látegos de risos,
E nem sequer poupando os santos paraisos.
Na praça era o judeu sujeito a atrocidades;
Na côrte, D. Manuel escarnecia os frades.

Havia pois de um lado a força da rotina
E do outro a Ideia incuba a preparar a ruina.

Mas n'isto um sobresalto os cerebros sacode,
Roma chega raivosa, e vê que nada póde.
Copernico affirmava a terrea rotação,
Perdia o seu prestigio a santa religião!
Forçoso era impedir a affronta d'essa Idéa!
O sabio ponderou, que outr'ora na Chaldéa
Se havia já mostrado o movimento á Terra;
Porém a Curia segue em furibunda guerra,
E condemnou-lhe a obra.

Mas eis um luctador que a força audaz redobra,
E com coragem fria
Procura no infinito as leis da astronomia.
Inventa o telescopio e applica-o logo ao ceu.

E o mundo olha assombrado o insigne Galileu,
Que segue passo a passo
O trajecto eternal dos mundos pelo espaço.