Nas praças, os peões, laboram tristemente,
E n'uma gelosia um vulto sorridente
Espreita cuidadoso ao longo dos caminhos.
Passa ás vezes um nobre envolto em bons arminhos,
E alinham-se na rua, á porta dos conventos,
Os novos com preguiça, e os velhos sem proventos.

De repente porém, um intimo ruido
Se escuta assustador na entranha da cidade!
Depressa lhe succede horrivel alarido,
E um turbido baquear, em toda a extensidade.

Oscilla cada predio, e cahem pelo sólo
Desfeitos como em pó os rijos edificios;
E a misera Lisboa, afflicta, pólo a pólo
Vomita o seu terror, por igneos orificios.

Fogem as mães tremendo, os filhos junto ao seio,
E correm a acolher-se aos templos do Senhor;
Mas eis que ao grande affan do seu materno anceio
Ahi se expõe um quadro escuro e aterrador.

Abobadas cahindo em cima dos altares,
E o padre surpreendido em meio dos cantares,
Sem voz, sem movimento, a par de uma madona
Que ha muito se ostentava em seu painel de lona.
Creanças a chorar, columnas em pedaços,
Soluços do estertor, e aqui e além uns braços
Sob as pedras surgindo e estrebuchando a custo!...

Nas ruas e jardins não é menor o susto.
Rodou rapidamente o nivel da desgraça!
Só resta enorme entulho onde era alegre praça,
E os tectos ao cahir nos crepitantes lumes,
Erguem linguas de fogo, em cálidos queixumes.

Estala o velho tronco ao cedro gigantesco,
E paira em tudo o horror mortifero e dantesco.
E para cumular o quadro de afflicções,
O Tejo, saccudindo os pardos turbilhões,
Devora febrilmente as ruinas rescaldantes,
E lambe o morto, e o vivo, em saltos delirantes,
E abrindo o coração, sedento de vingança,
Abysma o forte, o fraco, o velho, a mãe, a creança!

E como se o terror gerasse a crueldade,
Para opprobrio veraz da crúa humanidade,
No cahos tumulento anda essa immunda plebe
Que rouba, que assassina, e apenas se apercebe,
Sob as nuvens de fumo e pulsações do fogo.

E o rei e o seu ministro?
Accaso n'esse jogo
Da horrifica tormenta, o ceu de azul purissimo
Ousaria esquecer um rei que é fidelissimo?
Quem sabe se terão cahido do vaivem?

Salvou-o Jehovah--el-rei estava em Belem?
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