Dous feios diabos
Mui cabelludos,
Cornos agudos
E longos rabos,
Entram na cella
Do bom santinho;
Vão-lhe á panella
Que ao lume tinha
C'uma gallinha
Paio e toucinho,
Tiram-lhe a tampa,
Comem-lhe tudo,
Deitam-lhe trampa;
Vão-lhe á borracha
Que tem o vinho
N'um esconderijo;
Bebem-lhe tudo
Deitam-lhe mijo.
Á tal cambada
Não escapa nada
Tudo se acha
Quebra e estraga
Mija e caga.

Uma pequena bonita
Tambem lh'entra na caverna
Toda lépida e catita,
E começa a levantar
O ballão, e linda perna
Logo se põe a mostrar...
«Ai Jesus! diz Santo Antonio
Vai-te d'aqui ó demonio
Não me estejas a tentar...»

«Façam dançar
Contradançar
Pular
Cantar
Saltar
Esse santinho»
Já diz gritando
Um diabinho
Que está tocando
A desgarrada
N'um cavaquinho.

Eis toda aquella
Endiabrada
Troça bravia
O bom do Santo,
Que já n'um canto
Se escondia,
Vai buscar.
E a tocar
N'uma panella
Com a tranca
Da janella,
N'uma banca
O faz dançar
Pular
Saltar
Cantar.

Até Plutão, o rei demonio,
Quiz assistir á funcção,
Pois quer ver se frei Antonio
Se livra da tentação;
E p'ro que der e vier
Comsigo traz a mulher.

O Santo todo encolhido
No meio d'aquella canalha
Cada vez mais se atrapalha;
Um demo mais atrevido,
Dá-lhe muita bordoada,
E outro feito cupido
Vem por traz com uma setta
E no coração lh'a espéta...
A nada se move o frade
Modelo de castidade!!

Vendo porém
Que fim não tem
A seringação
Fórma tenção
De s'esconder;
E mui callado
Vai-se a metter
Dentro da cama;
Mas lá recúa
Todo espantado
Pois uma dama
Toda janota,
(Ainda que nua,
Mesmo em pelóta)
Acha deitada
Em seu lugar...
A concubina
Com uns olhinhos
Muito espertinhos
A scintillar
Já o fulmina
E quer tentar...

A tal menina
É mesmo boa;
Se Prosepina
É em pessoa!

Santo Antonio atrapalhado
Contempla incendiado
Aquella erotica scena,
E em frente da belleza
De coisas que nunca viu...
Ao poder da natureza,
Com bem custo resistiu...
Mas quando quasi tentado
Com os olhos da pequena,
Vai a cair na esparrella
De saltar a cima della,
Lembra-lhe Deus derepente
Que vai cair em peccado,
Fica todo aforçurado
E como que inspirado,
Vai buscar muito apressado
D'agua benta seis canadas
E nos demos imponente
Ferra boas hysopadas.
Estoira que nem castanhas
Toda aquella diabada,
Cada demo dá um tiro
Que nem uma peça raiada;
E fugindo a bom fugir
Tudo vai em debandada,
Santo Antonio de contente
Dá tamanha gargalhada
Que até no traseiro sente
A fralda toda cagada.

«Se não vou buscar
Logo tão depressa
A tal agua benta,
De certo me tenta
Aquella travêssa...
Olhem que é ladina,
Mesmo de tentar,
A tal Prosepina!
Mal empregado pexão
Para o dente do Plutão!»