A Rainha Santa Isabel foi, como já dissemos, aureolada desde o seu nascimento pela graça do Senhor. As suas preciosas virtudes bem cedo se revelaram, crescendo nela com a idade a fama que tanto a impôs á consideração de todas as côrtes da Europa, facto que despertou em bastantes principes o desejo de possuirem como esposa tão excelsa senhora.{6}

Foi á côrte de Portugal, felizmente, que coube a suprema ventura de ser a preferida entre todas as outras, merecendo El-rei D. Dinís a gloria de ter como consorte um tesouro de tantas virtudes e de tão preciosos encantos.

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O casamento de D. Dinís com D. Isabel celebrou-se por procuração na antiga cidade de Barcelona, tendo lugar este acto no dia 11 de Fevereiro de 1282 e contando a futura Rainha de Portugal apenas 11 anos de idade. Êste auspicioso enlace constituiu um motivo de grande regosijo para todos os portugueses, antevendo estes os enormes beneficios deste casamento, o qual foi muito festejado e aclamado em todo o país com demonstrações de grande alegria e verdadeira satisfação.

A saída de D. Isabel para Portugal causou a seus pais grandes tristesas, custando-lhes imenso essa separação pelas profundas saudades que D. Isabel deixava em todos os corações que muito a estremeciam.

De Espanha até Coimbra foi a excelsa Rainha delirantemente aclamada por todo o povo que acorria á sua passagem, salientando-se mais essas carinhosas manifestações na antiga vila de Trancoso, onde, no dia 24 de Junho de 1282, no templo de S. Bartolomeu, se celebraram com toda a pompa as bençãos nupciais.

Em Coimbra, onde a esse tempo residia a côrte juntamente com a principal nobresa do reino, as manifestações de contentamento e alegria pela chegada dos régios nubentes, atingiram o mais delirante entusiasmo, conquistando logo a Rainha D. Isabel a simpatia e o amor dum povo que, mais tarde, havia de herdar o seu mais precioso tesouro—o sagrado corpo que todos{7} hoje veneramos—e que esta cidade conserva com a mais desvelada e respeitosa devoção.

As manifestações de regosijo com que a cidade recebeu os régios consortes foram, pois, verdadeiramente grandiosas, vestindo a cidade as suas melhores galas para bem lhes significar o contentamento de que se achava possuida por motivo daquele enlace, cujos efeitos tanto se evidenciaram na vida da nação portuguesa, e de que Coimbra comparticipou em larga escala pelos benéficos actos de caridade que a Santa Rainha espalhou por toda a parte.

Foi nesta cidade, principalmente, que D. Isabel de Aragão manifestou mais claramente a pureza da sua alma. Os actos de caridade que praticou, os socorros por ela prestados á indigencia, aos órfãos, ás viúvas e ás donzelas abandonadas, foram os primeiros lavores que lhe teceram a sua coroa de gloria; a fundação de asilos, de albergues e de hospitais, que a sua magnificencia sustentou e onde se recolhia uma legião de infelizes, originou, sem duvida, a fama de santidade que bem cedo a distinguiu e que, mais tarde, a 25 de Maio de 1625, dia da Santíssima Trindade, a Igreja confirmou, englobando-a no numero dos eleitos do Senhor.

CAPITULO II