Nem podia impedir a comissão, de o fazer, a pretendida incapacidade para reprezentar esse importante papel, de que os etimolojistas tem sempre acuzado e continúão acuzando a pronúncia, atribuindo-lhe uma estrema inconstáncia. Neste mesmo momento acaba de publicar-se em París uma m[~u]ito erudita óbra, cujo àutor (G. Berchère), narrando os m[~u]ito grandes e muitíssimo repetidos esfórços que em França se tem feito constantemente para estabelecer a ortografia sónica, se aprás em repetir todas as objèçõis que se lhe tem oposto; e néla se dis que «abandonada aos caprixos da pronúncia, a palavra é como um cavalo indócil sempre pronto a escapar-se», reclamando que para se assegurar a estabilidade da língua, aquéla se consérve «amarrada ao póste da etimolojia».

A comissão considéra ésta objèção sem valor. A pronúncia não é imutável; mas, se nós vemos entrar a miúdo palavras nóvas na língua, não vemos que se mude sensivelmente a pronúncia das que néla ezístem. E contra a mobilidade natural da pronúncia já se mostrou com a istória na mão, que não é a etimolojia barreira competente. M[~u]ito mais fórte barreira á-de ser o dicionário, onde éssa pronúncia seja determinada, assim como a ortografia; ele fixará uma e outra; ainda mais, ele concorrerá para a unificação da pronúncia, porque na escóla nòrmal se ensinará a pronúncia nòrmal, e os professores alí abilitados irão derramal-a em todo o país. Se a Academia, como assevéra o àutor citado, domina de tal módo aquéla volúvel França, que a sua submissão é tão compléta que éla fás passar por ignorante e sem educação literária todo aquele que cométe uma falta contra a ortografia recomendada pelo Dicionário, podemos ficar cértos de que os nóssos compatriótas, m[~u]ito dóceis, menos vários e pouco recalcitrantes, se sujeitarão sem relutáncia e cumprirão fielmente as prescriçõis do dicionário que lhes dérem.

E não válem a seu ver, mais que este, os outros argumentos dos etimolojistas, que a comissão, como éra seu dever, ezaminou cuidadóza e concienciòzamente; entre os quais avulta o de se ficar inabilitado, adòtada a ortografia sónica, para utilizar os tezouros de saber encerrados nos livros escritos em ortografia etimolójica: com isso, esclâma o mesmo àutor francês, ficaria sendo uma mentira o pensamento de Pascal—que a umanidade é como um ómem que, subsistindo sempre, aprenderia sempre ao passo que envelhecia—. Em primeiro lugar quázi todos se limítão oje a ler as variadas publicaçõis da àtualidade; são da àtualidade quázi todos ou todos os livros por que se estuda nas nóssas escólas de todos os graus d'ensino; e os que vão consultar os vélhos abitadores das bibliotécas enfádão pouco os reprezentantes da nóssa literatura. Em segundo lugar um passo mais, no caminho já tão trilhado da transformação da língua, não nos levava tão lonje do estado prezente que se não pudésse fazer o que oje se fás. Nos dicionários d'agóra as palavras são bem diferentes do que fôrão em outras éras, e os literatos nem por isso deixão de entender os livros respètivos; do mesmo módo aconteria depois. A etimolojia lá estaria marcada no competente léccicòn; e num dicionário manual, bastaria pôr em parêntezis a palavra com a àtual ortografia, para ficar tudo remediado quanto aos livros modérnos: quem manuziava o dicionário, vendo sempre a palavra com ambas as ortografias, ficava conhecendo tão bem uma como outra.

Conseguintemente, a razão e a lójica aconselhávão á comissão a ortografia sónica, que é o progrésso; e decidiu adòtal-a em princípio.

Avendo aceitado e tendo de propor o princípio, a comissão julgou dever estudar e propor tambem um método para ele ser levado á prática. Óra, a eicelencia da ortografia sónica deriva principalmente do seu princípio fundamental,—a unidade da reprezentação dos sons; isto é, cada som é segundo éla reprezentado sòmente por um sinal, e cada sinal reprezenta unicamente o seu respètivo som. Éra tal princípio, por conseguinte, um ponto de partida forçado; e para aplical-o, tornava-se tambem forçozo determinar o número de sons elementares que avia a reprezentar, e os sinais mais próprios para éssa reprezentação.

Passando pois a estudar este momentozo assunto, éla teve de decidir-se sobre a pronúncia que devia tomar por nórma; e pareceu-lhe que, para este e para quàisquér outros pontos relativos a pronúncia, devia pôr de parte tanto a d'aqueles que são mais ou menos analfabétos, como a dos eruditos apàixonados pelas raízes etimolójicas que quérem que a pronúncia se subordine á ortografia em vês d'ésta se subordinar àquéla, e que devia aceitar como pronúncia nòrmal a dos que lem e escrévem mais ou menos regulàrmente, a qual é tambem a da màiór parte dos eruditos. E do seu estudo, assim como do ezame do nósso alfabéto, concluiu o seguinte:

1.^o Que os elementos da nóssa prozódia são 10 sons vogais simples, isto é—a aberto, fexado e surdo,—e abérto, fexado e surdo,—i,—o abérto e fexado,—u—; os quais se fázem ouvir, o a fexado na primeira sílaba de gâmo e os outros no fim das seguintes 9 palavras: òlá cóva, café mercê vide, ali, cipó avô, tu. (O som de—o—surdo é igual a—u—brève).

Que d'esses sons recébem a entoação nazal cinco,—a abérto, e e o fexados, i, u—, como se vê da primeira sílaba d'éstas 5 palavras: lança, pênte, tinta, pônte, mundo.

Que temos 11 ditongos ou sons vogais compóstos, isto é, ái, áu, éi éu, iu, ói, ui, ei eu, oi ou; do que dão ezemplo as palavras: ráiva Páulo, cordéis arpéu, feriu, bóia, ruivo, peito feudo, boi Vouga.

Que não averá dúvida quanto á subjuntiva de todos estes ditongos, nem quanto á prepozitiva dos primeiros 7, mas que póde avêl-a quanto á dos 4 últimos; a qual a comissão entende não ser e fexado para os 2 primeiros nem o fexado para os segundos, mas um som intermédio entre o som abérto e o som fexado de cada um.