Quando as discussões de hum Congresso são feitas por Cidadãos, Sabios, e Prudentes, então lhes podêmos chamar Discussões inspiradas por Deos de Moysés (Omnipotente Deos Creador do Universo), e bem podêmos estar certos que a parte restante dos Cidadãos, que não entrão em tal Congresso, será feliz igualmente, isto he: Serão conciderados igualmente, ou sejão grandes, ou pequenos (Fidalgos, ou Plebêos) pois que o direito das Gentes não conhece distincção mais do que a Virtude, ou o Crime: outro sim apenas destingue quando se trata de premiar os bons; e castigar os máos, que os homens todos são homens!

"Iguaes são todos todos são parentes,
Todos nascerão ramos descendentes
Do tronco antigo do primeiro humano."

Pelo contrario quando as Discussões são feitas por Ex-Cidadãos (homens sò na figura!) ignorantes, e orgulhosos, então lhe podêmos chamar Discussões inspiradas por Jove! Deos dos Poetas! (ou das quimeras que val o mesmo!) e poderêmos ficar certos que os homens neste caso não serão tratados conforme os seus merecimentos, mas sim conforme a sua orgolhosa Representação, e exclamarmos com La Fontaine.

Jove duas mezas poz para os dois lotes
Da gente d'este mundo:
O Destro, o Esperto, o Forte estão sentados
Á primeira;—os pequenos
Comem os seus sobejos á segunda.

* * * * *

Observações Criticas, e Alegoricas.

I. No conceito de todos os Escriptores de boa nota (e até na realidade existente) Portugal em longitude de terreno, e mesmo no circulo circumferencial não he hum dos maiores Reinos!.. Porém quer pela sua riqueza, posição geografica, brio de seus habitantes, em summa por ser cheio como hum ôvo (valho-me desta expressão por não ser eu o primeiro que della uso) foi sempre olhado por todas as Nações Europeas com admiração, ou emulação, conforme lhe quizerem chamar?… Não obstante tal he a alternativa dos tempos, que ou por huma innação, ou por huma politica (que impolitica lhe chamára eu!) mal considerada, este pequeno circulo cheio como hum ôvo, que assim se podia considerar até á época de 1807 que a ex-politica Franceza o galou, e outras circunstancias (pelas causas acima que dissemos) o regalárão, a não ser huma inesperada Providencia com a mira n'hum Heroismo Constitucional, estava o sobredito ôvo a ponto de se chocar de todo!..

II. Dizem os Politicos, (e eu o creio) que por todas as razões o homem deve aprender a Grammatica da sua propria lingua… Suppomos hum inteiro e severo Magistrado: Que bella cousa não he saber conjugar o Verbo—Eu perco (diz hum só que ás vezes he mui bem que perca por que se faz merecedor de perder; pois que tem perdido outros para elle ganhar!): Nós perdemos (ás vezes injustamente): E que a pluralidade do ultimo deve ser preferida á singularidade do primeiro!

III. Quando reina o Despotismo, e o Rigor, o Genio Grande no centro de hum Palacio, vive para si acanhado, aborrecido, e para os outros Entes morto!… Quando a doce liberdade o pequeno Genio dentro de huma choupana vive altivo, magestoso, e entre balbuciantes vozes de ignorancia!! lhe escapão alguns pensamentos interessantes, e desta sorte se torna mais util á Sociedade o Ignorante livre, do que o Sabio captivo.

IV. Quando o Governo he Monarquico, succede, regularmente, que estando hum homem no Throno, he governado o Reino por huma Mulher! e se está huma Mulher, por hum homem! E desta maneira vem a ser Governados os Póvos ora pelos caprichos de hum, ora de outro individuo!