É a melancolia da historia! Por entre o canto das Epopeias antigas escuta-se a espaço o gemido surdo d'esse desconhecido e infeliz mundo de escravos sobre cujos hombros doridos os heroes{17} assentavam as suas cidades de luz...
E os palacios heroicos da humanidade, que são as horas solemnes da sua inspiração, encobrem-nos tambem os peitos escuros mas fortes sobre que se ergueram esmagando os talvez, esses torreões de brilho!
Mas que importam os sacrificios? O carro de triumpho não se lembra da mina sombria d'onde sahiu o metal das rodas que o levam.
A obra do misterio, a cupula esplendida da historia antiga ergue-se e ninguem, sabe ahi por que mãos se ergue. Mas solida é a sua base, que nenhuma convulsão lançará por terra como o canto de granito nos alicerces do circo romano.
A estatua ideal da Fé humana achou emfim o pedestal de marmore immaculado, onde se firmem seus pés divinos—a consciencia da nobresa do destino do{18} homem, a revelação da sua mesma divindade.
IV
Mas, esse Deus misterioso, que ceu o esconde nos paramos do ceu azul immensuravel? Que Sinai enubla a sua gloria? O seu altar em que monte o ergueram os profetas desconhecidos? Que rito é o seu—e em que taboas de marmore escreveu o fogo de cima a legenda prodigiosa de sua lei? No meio de nós por entre o tumultuar das gerações passa como o Deus antigo, por entre os combates da Iliada, e ao longe retumba o echo de suas passadas. E, emtanto, ninguem o vê. Só de longe a longe, algum profeta desce das solidões a mostrar ao mundo a palidez de suas faces emagrecidas, seus olhos cavos e fixos, da fixidez assustadora das visões, como testemunho{19} de ter entrevisto na sua noite um raio d'essa gloria que o deslumbrou e consumiu.
É o absoluto que deixa nas mãos do homem, que o tentou prender na sua fuga eterna, um fio apenas da sua tunica de brilho. Mas esse fio é um raio de tal luz, que basta a alumiar o trabalho de muitos seculos!
Toma-o nas mãos Moisés, mostra-o ao mundo, e chama-se Jehová. Ergue-o Mahomet entre os povos e chama-se Alláh. Deixa-o Christo cair do alto da sua cruz, e chama-se amor. De cima d'uma guilhotina o atira Robespierre para o meio das multidões e chamam-lhe Direitos do homem e Revolução. E Hegel, levantando a cabeça de sob as ondas immoveis e tristes da abstração, lança nos ventos, que a levam ao mundo, esta palavra—Ideia!
O que revela cada profeta não é o{20} Deus eterno, o Absoluto dominador, entre cujos braços se contém o universo, não confuso e multiforme nas mil apparencias do relativo, mas na verdade ideal da sua essencia—o ser puro.—Esse poderia por ventura, afirmal-o a creação toda, os soes e os insectos, o espirito e a materia; o visivel e o invisivel, o certo e o possivel, se um dia, esquecendo ao movimento lançar o metal ardente de suas creações nos moldes da variedade, se precipitasse todo sobre o seu centro ideal assumindo emfim a consciencia plena da sua universalidade.