Mas, se já alguma hora da historia impoz aos que fallam alto entre os povos obrigações de seriedade, de profunda abnegação, de sacrificio do eu ás tristezas e miserias da humanidade, de trabalho e silencioso pensamento; se alguma hora lhes mandou serem graves, puros, crentes, é certamente esta do dia de hoje, da edade de transformação dolorosa, de scepticismo, de abaixamento moral, de descrença, que é o nosso seculo. Refundem-se as crenças antigas. Geram-se com esforço novas idêas. Desmoronam-se as velhas religiões. As instituições do passado abalam-se. O futuro não apparece ainda. E, entre estas duvidas, estes abalos, estas incertezas, as almas sentem-se menores, mais tristes, menos ambiciosas de bem, menos dispostas ao sacrifício e ás abnegações da consciencia. Ha toda uma humanidade em dissolução, de que é preciso extrahir uma humanidade viva, sã, crente e formosa.
Para este grande trabalho é que se querem os grandes homens. Sahirão esses heroes das academias litterarias? das arcadias? das sinecuras opulentas? dos corrilhos do elogio-mutuo? Sahirão as aguias das capoeiras? Saltarão as idêas salvadoras do choque das maledicencias e dos doestos? Nascerão as dedicações do casamento das vaidades? Darão a grande novidade os ledores de Horacio? Inventarão as novas formulas os que decoram as phrases rabugentas dos livros bolorentos que chamam classicos? E os Socrates e os Epictetos descerão para as suas missões das cadeiras almofadadas, das rendosas conezias litterarias, das prebendas, das explorações?{11}
Fóra d'essa atmosphera corrupta, e, quando não corrupta, pelo menos esterilisadora, é mais provavel encontrarem-se as condições que precisam para viver e crescer os homens uteis e necessarios ás transformações do espirito humano.
Não é traduzindo os velhos poetas sensualistas da Grecia e de Roma;[[3]] requentando fabulas insossas diluidas em milhares de versos semsabores;[[4]] não é com idyllios grotescos sem expressão nem originalidade, com allusões mythologicas que já faziam bocejar nossos avós;[[5]] com phrases e sentimentos postiços de academico e rhetorico;[[6]] com visualidades infantis e puerilidades vãs;[[7]] com prosas imitadas das algaravias mysticas de frades estonteados;[[8]] com banalidades;[[9]] com ninharias;[[10]] não é, sobre tudo, lisongeando o máo gosto e as pessimas idêas das maiorias, indo atrás d'ellas, tomando por guia a ignorancia e a vulgaridade, que se hão de produzir as ideias, as sciencias, as crenças, os sentimentos de que a humanidade contemporanea precisa para se reformar como uma fogueira a que a lenha vai faltando.
Mas fóra de tudo isto, d'estas necedades tradicionaes, é o nevoeiro, é o methaphysico, é o inattingivel—diz v. ex.ª
Todavia, quem pensa e sabe hoje na Europa não é Portugal, não é Lisboa, cuido eu: é Paris, é Londres, é Berlim. Não é a nossa divertida Academia das Sciencias, que revolve, decompõe, classifica e explica o mundo dos factos e das idêas. É o Instituto de França, é a Academia Scientifica de Berlim, são as escholas de philosophia, de historia, de mathematica, de physica, de biologia, de todas as sciencias e de todas as artes, em França, em Inglaterra, em Allemanha. Pois bem: a Allemanha, a Inglaterra, a França, comprazem-se no nevoeiro, são incomprehensiveis{12} e ridiculas, são methaphysicas tambem. As tres grandes nações pensantes são risiveis deante da critica fradesca do sr. Castilho. Os grandes genios modernos são grotescos e despreziveis aos olhos baços do banal metrificador portuguez.
O grande espirito philosophico do nosso tempo, a grande creação original, immensa da nossa edade, não passa de confusão e embroglio desprezivel para o professor de ninharias, que cuida que se fustiga Hegel, Stuart Mill, Augusto Comte, Herder, Wolff, Vico, Michelet, Proudhon, Littré, Feuerbach, Creuzer, Strauss, Taine, Renan, Buchner, Quinet, a philosophia allemã, a critica franceza, o positivismo, o naturalismo, a historia, a methaphysica, as immensas creações da alma moderna, o espirito mesmo da nossa civilisação.... que se fustiga tudo isto e se ridicularisa e se derriba com a mesma sem-cerimonia com que elle dá palmatoadas nos seus meninos de 30, 40 e 50 annos, de Lisboa, do Gremio, da Revista Contemporanea!
Quem seguir tudo isto vai com o pensamento moderno; com as tendencias da sciencia; com os resultados de trinta annos de critica; com a nova eschola historica; com a renovação philosophica; com os pensadores; com os sabios; com os genios; vai com a França; vai com a Allemanha—mas que importa? não vai com o sr. Castilho! não vai com o novo methodo repentista! não vai com o moderno folhetim portuguez!
O metrificador das Cartas d'Echo diz ao pensador da Philosophia da natureza—tira-te do meu sol!—O mythologo do diccionario da fabula diz ao profundo descubridor da Symbolica—és um ignorante!—A rethorica portugueza diz á sciencia, ao espirito moderno—cala-te d'ahi, papelão!
É que tudo isto não passa de idêas. Ora ha uma cousa que o sr. Castilho tomou á sua conta, que não deixa em paz, que nos prometteu destruir... é a methaphysica... é o ideal...