É d'estes dous elementos—sciencia e inspiração—que brotam as nobres ideias e grandes verdades, que por vezes têm mudado a face de uma civilisação, quando, em vez de uma á outra se mostrarem hostis para fim commum se têm dado mãos amigas.
Nas porfiosas luctas politicas do seculo, em que—mais ou menos—todos temos sido actores ou espectadores, se encontra clara prova e exemplo manifesto da proposição que aventamos.
Por longo tempo trabalharam em bandos oppostos e á sombra de vario pendão os modernos representantes d'esses bons principios, uns e outros promettendo-nos felicidade, mas cada qual{61} em nome de mui diferente divindade; até que, passados que foram os tempos de mais escandecida lucta e acalorada discussão, a mesma força da verdade os trouxe a si; e a commum e amigavel união lhes soube chamar os animos discordes.
Ambos em parte transviados, a ambos comtudo assistiam tambem em parte principios de verdade. Inimigos, seriam sempre viajantes perdidos em densas trevas, cada vez a se affastarem mais das veredas trilhadas; reconciliados, um ao outro se guiam e ajudam, com as luzes e forças proprias, em nome d'uma longa amizade no futuro, postas em commum.
E de feito, não é hoje que, no meio d'essa pleiade illustre de generosos espiritos, que anhelando anciosos por um melhor futuro, trabalham afanosos para alivio e engrandecimento dos que choram;{62} não é hoje que entre elles se encontrarão rivalidades d'eschola, mas indignas d'homens, ao bem dos homens votados.
São hoje irmãos. Os erros de cada qual, ao despirem-se dos velhos rancores, sacrificaram-nos no altar da nova alliança; e d'entre as cinzas impuras, que o vento dispersa ao longe, sahiu—nova Phenix—a flôr immarcessivel da verdade eterna.
XIV
Associação e Liberdade dissera eu serem essas duas ideias aonde se depara mais verdade e que, ambas fundidas em factos, podem dar fructo mais sasonado e proveitoso; o leito por onde placida póde correr, demandando seu termo, a torrente—ora revolta e turbada por mil encontrados elementos que ahi{63} se revolvem e guerreiam—da vida das modernas sociedades.
E como não seria assim, se ramos frondosos de arvore, que no coração do homem tem fundas as raizes—a propria natureza, têm por fim, entrelaçando-se estreitamente e em mutuo amplexo apertando-se, ampararem-se e defenderem-se uns a outos, porque assim reciprocamente se protejam no crescer e no fructificar? Se são ara sacro-santa aonde os animos discordes em busca da verdade—mas que d'alma a buscam, tem de vir pactuar a alliança, queimando ahi, em holocausto incruento, o fel de paixões ruins e desamoraveis ¿como poderão ellas, por estranho desapego e ingratidão mentir ao que, em nome de futuro melhor, nos promettem, e a que, na fé d'esse almejado futuro prestamos crença e esperança illimitadas?
Não podem. Quanto á intelligencia e{64} coração do homem se revela uma verdade, tam rica de evidencia, tam promettedora de consolações, não póde «Aquelle» que ao espirito a revelara deixal-a sem que pela revelação dos factos receba confirmação e com ella foros de inconfutavel.