Bem que a Europa jazia manietada mais ou menos pelos grilhões da tyrannia, comtudo não se mostram os governos descuidosos em promover a illustração pelo meio das massas: por toda a parte, nomeadamente na França, na Italia, na Allemanha e até na inculta Russia, se veem a cada passo escholas para o pobre, e não é raro topar o trabalhador, pela hora da sésta, entretendo-se a{11} folhear, lêr e entender livrinhos, que, apesar de mui comesinhos e de popular expressão, nem por isso deixam de o iniciar no saber.
É certo que os verdadeiros promotores d'este progresso intellectual não são os oppressores, que mal têm elles tempo de se rodearem de lanças e bayonetas: são os democratas, os verdadeiros amigos do povo, que por elle velam, e cuja voz, que é a voz da verdade e da justiça, apezar de proscripta e desterrada, brada tão alto, que a propria tyrannia, em que lhe pese, se vê forçada a se sujeitar mais ou menos aos mandatos d'esses representantes da opinião: parece que a providencia capricha em haver os tyrannos por instrumento da propria ruina; pois só a illustração, que dá ao homem a consciencia de seus direitos, póde derribar ruins governos e oppressores. Assim a instrucção progride e gradualmente{12} estende a sua rede, anhelando abraçar todas as camadas da sociedade, ministrando á terra virgem, mas productivel semente de muita ideia, que se há de resolver em ainda muito mais obras de bem e só para o bem.
III
Remissa e vagarosa, porém, vae a instrucção por esta boa terra de Portugal; e ai de nós se não se attende a este grave mal com promptos remedios, ai de nós, por que um povo que possue a liberdade sem instrucção, que só o póde n'ella iniciar e nos sagrados direitos em que se resolve, a custo poderá conserval-a, e o que é mais, conserval-a sem abusar.
Saidos apenas d'um baptismo de sangue, em que nos foi mister mergulhar para grangear uma alma nova,{13} para reconquistar a austera mãe dos povos, a liberdade, conservamos ainda vestigios cruentos, reminiscencias odiosas d'essa lucta fratricida, bem que em prol da patria; e é só a instrução que nos póde lavar da fronte as manchas do sangue de nossos irmãos, e conduzir-nos a bom fim.
Qual é pois a causa da ignorancia—indigna do seculo—em que vegeta todo o nosso povo e grande parte da burguezia? Porque não é só o proletario, é tambem a classe media em grande escala, que não cura de seus direitos e liberdades, considerando-os, indifferente, como uma invenção do seculo, e desconhecendo que só elles são as garantias unicas e segurissimas da sua individualidade e progresso.
A causa não está na escassez de livros populares, que alguns temos nós e de elevado merito; nem mesmo na indifferença{14} do povo portuguez, que sabido tem elle mostrar o como zela seus direitos, uma vez compenetrado por elles. A resposta já de ha muito a deu um grande homem e um grande Portuguez, quando se lastimava de que possuindo nós ainda todos os elementos d'uma grande ventura, só nos faltasse um a vontade dos que podem.
IV
A carencia d'uma boa organisação de escholas, d'um bom regulamento litterario, e um ministerio—proprio de instrucção—o campo que se acanha a quem sabe, e só se alarga a quem tem e póde; eis as causas do menospreso e quasi aversão, que entre nós soffrem lettras e sciencias. Esta é a causa, e só causa de tantos males.
Sei que é dura e fere o ouvido, e{15} mais ainda o coração, esta verdade, comtudo é uma e tão amarga, que custa a confessar, parecendo melhor desculpa, a mingoa de livros bons e baratos.