As garantias efficazes de defeza da sua integridade e de respeito da sua dignidade não póde a nação encontral-as senão n'uma profunda reforma da legislação e costumes. Radicou fundo no animo de todos este pensamento. Á «Liga Patriotica do Norte», assim como ás Associações congeneres, que sem duvida se vão formar por todo o paiz, cumpre agora tornal-o effectivo, dar-lhe fórma pratica e impol-o como a ideia directora d'uma era de renovação nacional. Por arduo e trabalhoso que seja este grande encargo, o patriotismo de todos os membros da «Liga» estará á altura d'elle.
Por amor d'este fim supremo, sacrificaremos todos no altar da patria intuitos e providencias particulares dissidencias, azedumes e suspeições, triste legado d'um tempo de mesquinhas luctas, que entibiaram ainda os melhores, e unidos n'um commum ideal, seremos fortes por essa união indissoluvel, tão indissoluvel, como a unidade da patria, cujo sentimento nos inspira a todos, sem distincções.
Terminarei, senhores, dando-vos conta dos meus actos, como presidente da «Liga Patriotica do Norte.»
Em primeiro logar, como presidente da vossa commissão encarregada de elaborar as bases do estatuto da Liga, esforcei-me por que esta nossa lei fundamental exprimisse com a maior clareza e da maneira a mais pratica o pensamento systematico e essencialmente popular e patriotico da Liga. Foi-me esse esforço tanto menos custoso, quanto encontrei na vossa commissão e em cada um dos seus membros luzes, dedicação e unidade de pensamento, posso bem dizel-o, completas. Reconhecereis tambem, que, apesar do nosso ardor, nos não era possivel desempenhar-nos do nosso encargo n'um periodo de tempo mais curto, se considerardes que a obra que nos incumbistes, além da sua complexidade, apresentava certos problemas delicados de organisação que precisavam ser attentamente estudados. Ella vos foi já apresentada, e ides julgal-a. Nada mais devo accrescentar a este respeito; senão que ella representa o melhor não só da nossa intelligencia como dos nossos sentimentos.
Em segundo logar, entendi do meu dever representar ao governo de sua magestade, em nome da «Liga Patriotica do Norte», e pelos motivos que todos conheceis, sobre a necessidade de ser retirado o exequatur ao consul inglez n'esta cidade. A vossa commissão installadora, por um voto unanime, adheriu a esta minha iniciativa. Não vos encobrirei, senhores, que redigindo aquelle documento a minha confiança na firmeza patriotica dos membros do actual governo, confiança que a todos os portuguezes deve, em principio, merecer qualquer governo portuguez, não podia ainda assim destruir completamente no meu animo certas apprehensões e como que um presentimento de que a nossa representação não seria coroada do bom exito. Eram-me bem conhecidas as circumstancias, umas mais antigas, outras actuaes, que reduzem quasi fatalmente os governos de Portugal a um estado de timida dependencia perante o governo inglez. Entretanto, além de que sempre se deve tentar o que é justo, animava-me um tanto a consideração da attitude energica e que eu não tinha rasões para não suppor patriotica, assumida pelo actual presidente do conselho de ministros, tanto no conselho de estado como na imprensa, logo ao rebentar do conflito anglo-portuguez.
Desgraçadamente, não eram mentirosos aquelles meus tristes presentimentos. A resposta do Presidente do Conselho á nossa representação, se attesta o empenho e bons desejos de S. Exc.ª em obter algum desaggravo para a dignidade nacional, dá ao mesmo tempo testemunho das insuperaveis difficuldades que rodeiam o assumpto, e é, para quem bem ler aquelle papel, uma lamentosa confissão da impotencia do Governo portuguez em face das arrogantes imposições do Governo inglez.
O Governo portuguez está inerme e coacto. É esta a cruel verdade. Convém que se diga bem alto e que todos d'ella se compenetrem. É tal actualmente a nossa fraqueza e dependencia, que o Governo portuguez não póde sequer conseguir esta cousa simplissima: a liberdade no uso do seu direito e a reparação, ainda moderada, d'um aggravo á dignidade nacional. O Governo inglez entende impôr-nos o seu consul insultador, e a nação portugueza tem de acceitar esta odiosa imposição. O governo portuguez, embora gemendo, nol-o dá sufficientemente a entender!
Ah, Senhores! quanto custa a um coração portuguez ter de reconhecer esta odiosa fatalidade! Mas devo reprimir os impetos da indignação, para só attender á voz austera e salvadora da razão. Sim, tenhamos a coragem de reconhecer essa cruel fatalidade, porque este reconhecimento será para nós salutar. Não recriminemos, não augmentemos ainda mais as funestas divisões que tanto nos têm enfraquecido. Saibamos antes tirar d'este facto desolador o ensinamento que elle contém. Comprehendamos por elle que o abysmo de fraqueza e humilhação, em que cahimos, é ainda mais fundo do que suppunhamos, e que para sahir d'elle precisamos redobrar de energia e patriotica dedicação. A desforra de tamanhas affrontas vem longe ainda mas será segura, se soubermos preparal-a com firmeza, união e perseverança.
A attitude que nos convém não é a do protesto violento e esteril: é a da concentração da vontade, applicando-se indefessa até conseguir, pela força e independencia reconquistadas, a desafronta, o socego e a dignidade. Se ainda fossem necessarias provas, esta ultima humilhação nos provaria quanto o pensamento da «Liga Patriotica» é único e salvador; quanto é necessario e inadiavel que unidos n'esse só pensamento, todos os Portuguezes trabalhem sem descanso pelo levantamento da nossa infeliz patria, hoje ludibriada e sem defeza. Coragem, paciencia e esforço: tal deve ser d'ora avante a nossa divisa. Se a seguirmos á risca, o futuro, um nobre futuro, digno do nosso nobre passado, nos recompensará amplamente pelos sacrificios do presente.