É por tudo isto que, a meu ver, a Idade-media não póde ser reduzida, como parece fazel-o o sr. Martins, a uma simples tradicção e a um periodo de atrophia dos elementos verdadeiramente evolutivos do mundo greco-romano. Para mim, são verdadeiramente evolutivos todos os elementos da idade-media, e a idade-media contém todos os elementos evolutivos da civilisação antiga: sómente o grande desenvolvimento e as posições respectivas é que são differentes. Considero o cristianismo como essencial á evolução; mais, como o termo necessario de todo o movimento moral da antiguidade: para mim, não só não foi elle um incidente perturbador, mas não foi de modo algum um incidente. A transcendencia, preparada e organisada por todas as escolas philosophicas desde Socrates até aos Alexandrinos, incluindo os Estoicos e até os Espicuristas (cuja metaphisica era{27} tão idealista e a moral tão mystica como as das outras escolas, e que não foram, como a alguns tem parecido, os precursores incompris dos racionalistas e naturalistas modernos), a transcendencia, phase necessaria do pensamento humano, tinha forçosamente de produzir uma religião analoga na essencia ao Cristianismo; ainda quando lhe faltassem os elementos, quanto a mim puramente morphologicos, da lenda oriental. Uma prova bem clara desta ultima asserção, encontro-a na reacção de Juliano, chamado o Apostata, cuja religião-philosophica não era menos transcendentalistica e mystica do que a cristan, e que, a ter vingado, haveria produzido uma theologia e uma igreja exactamente como o Cristianismo. Quero dizer que, dado o estado moral da humanidade na ultima época do periodo greco-romano, se o cristianismo não era inevitavel, o que era inevitavel era uma religião na essencia cristan, isto é, mystica. A exaltação mystica, que então se apossou do espirito humano, se foi um mal (e não creio que o fosse absolutamente), foi um mal necessario. Era um termo logico da Evolução; e a Idade-media, que foi o desenvolvimento desse termo, não póde por esse lado ser considerada como uma simples tradicção.
Em quanto aos Barbaros, bastar-me-ha dizer que não creio que fossem elles os destruidores da unidade romana, por si não só prestes a desfazer-se, mas já meia desfeita nos seculos 5.º e 4.º; que sem elles o imperio ter-se-hia igualmente desmembrado; que elles não impediram a extincção da escravidão antiga nem a formação da burguezia; que independentemente da influencia{28} germanica, já o feudalismo tendia a formar-se espontaneamente no imperio em dissolução, desde o seculo 4.º; que finalmente, muito antes das invasões já as sciencias e as lettras tinham decaido, e começára um entenebrecimento intellectual, de que os barbaros não devem ser responsaveis; bastar-me-ha dizer isto para que o sr. Martins aprecie as razões por que, ainda por este lado, nada encontro de anormal e de perturbador no curso da evolução geral da civilisação durante a Idade-media, nem vejo que houvesse interrupção de desenvolvimento produzida por causas estranhas e fortuitas.
É este o ponto principal da minha divergencia com o autor da Theoria e por isso o expuz mais detidamente. Os outros, que são ainda mais indifferentes á idéa geral do livro, sacrifico-os, para entrar quanto antes na apreciação dessa idéa.
[II]
Feitas estas reservas, passo a dizer alguma coisa sobre a idéa fundamental da obra. Obra, ponho eu aqui intencionalmente, porque é verdadeiramente uma obra, e não apenas um livro, a "Theoria do Socialismo" Não é uma simples exposição de factos historicos, mais ou menos curiosos, acompanhada de juizos e considerações, mais ou menos rasoaveis ou eloquentes: é um todo ordenado e systematico, em que os factos e as idéas se encadeam{29} logicamente, convergindo para um centro commum, que é o ponto de vista superior que os abrange e explica a todos. É um trabalho conjunctamente philosophico e scientifico, em que as generalizações formuladas pela sciencia historica recebem a sua sancção final dos principios racionaes em que assenta a philosophia da historia—tentativa semelhante na essencia e no methodo, embora diversa nas conclusões e inferior na execução, á que realizou Guizot na sua "Historia da Civilisação na Europa" e Michelet naquella admiravel "Introducção á historia universal". O sr. Martins não é um erudito, nem um philosopho de profissão: mostrou porém ter sciencia bastante e sufficiente elevação de pensamento para nunca ser inferior ao que um tal plano requeria. Ora, tentar isto, e realisal-o, apesar de muitos defeitos parciaes, com exito feliz na generalidade, é raro merecimento e que sobejamente justifica, me parece, esta particular designação de obra que dei ao livro. Escriptos desta natureza e alcance em nenhuma litteratura são frequentes: o do sr. O. Martins affigura-se-me que é por ora unico entre nós. Ainda assim, não é bem por isso que me congratulo, mas por ver na "Theoria do Socialismo" um symptoma animador de franca e séria adopção da idéa nova pelo espirito portuguez: é isto o que me faz saudar fraternalmente a obra e o autor.
Socialismo é para muitas pessoas uma palavra aterradora, exactamente porque não é para essas pessoas mais do que uma palavra. É para outras um symbolo magico e omnipotente abracadabra, a quem tudo se póde pedir, de quem tudo se deve{30} esperar, dotado sobrenaturalmente de uma virtude palingenesica para operar nas coisas humanas uma renovação total e universal, uma regeneração instantanea e absoluta: estes são os enthusiastas, que encarnam na palavra socialismo os seus sonhos individuaes de felicidade, em vez de simplesmente a considerarem como a expressão de uma ordem de phenomenos objectivos, independente das imaginações sentimentaes de cada qual, e só adequada á natureza das sociedades no seu desenvolvimento necessario. Apesar do que ha de respeitavel nos sentimentos desses crentes, estão elles tão longe como os outros de saberem o que realmente se deve entender por socialismo. A uns e outros recommendo o livro do sr. Martins, como muito proprio para lhes fazer perder tanto as esperanças como os terrores apocalypticos.
O socialismo não é nem a subversão violenta das instituições e dos costumes, nem a palingenesia messianica milagrosamente revelada, para acabar para sempre com os males humanos, por este ou aquelle inspirado propheta de tal ou qual cenaculo de crentes: e não é uma coisa, exactamente porque não é a outra. Não ha nisto paradoxo. Quero dizer que o socialismo não ameaça as instituições e os costumes, que constituem o organismo e a tradição da humanidade, precisamente porque não é uma invenção do pensamento individual um systema sem raizes historicas, exterior á realidade social, mas sáe, pelo contrario, da tradicção e da historia, é a propria historia e tradicção num periodo das suas transformações continuas, um parto da razão collectiva e um fructo natural do mesmo desenvolvimento da sociedade. É por isso{31} que a não ameaça, porque a sociedade não se destroe a si mesma: desenvolve-se e transforma-se; o socialismo não é mais do que a palavra que quadra ao grau de transformação e desenvolvimento do momento actual. O que foi no primeiro quartel deste seculo o liberalismo, o que tres ou quatro seculos antes havia sido a monarchia, e antes cinco ou seis as communas e o feudalismo, é o que será ámanhan (e já hoje começa a ser) o socialismo: um novo periodo e uma nova fórma no organismo das sociedades europeas. Tão inevitavel como aquelles, será como elles tão benefico e tão pouco subversivo, sendo, como elles foram, não um resultado fortuito de opiniões e interesses de individuos, mas um facto necessario da Providencia immanente na historia.
Em que consista esse facto é o que o sr. Martins, fazendo-se interprete dos phenomenos sociaes, se propôz explicar, e é o que nós, em companhia delle, vamos examinar.
Logo na primeira pagina do livro, formula o autor a sua idéa deste modo: a theoria do socialismo é a evolução.—Desculpe-me o meu amigo se lhe faço ainda questão duma palavra, mas o rigor nos termos não é indifferente. Duma maneira geral, a theoria do socialismo é certamente a evolução, mas a evolução dentro da historia e das coisas sociaes tem um nome mais particular e consagrado: o Progresso, que é a evolução na série da humanidade. A evolução abrange todas as séries do desenvolvimento no universo, cosmologico, geologico, organico, etc., e por isso inclue a humanidade; mas dentro desta é particularmente o Progresso. Diriamos, pois, com mais rigor: a theoria{32} do socialismo é o Progresso. Quizera tambem que o autor, nessa sua primeira these, tivesse definido com mais clareza e explicado com mais extensão esta idéa. Mas não importa: o que não se define totalmente nas primeiras paginas, torna-se bem patente pelo livro adiante, e isso é o essencial. O que o autor não diz mostra-o no encadeamento dos factos sociaes e na successão das doutrinas através da historia, de sorte que o seu livro representa-nos em relevo essa grande lei do progresso nas suas phases verdadeiramente significativas.
Ora, qual é o termo actual do Progresso? o socialismo, responde o sr. Martins, com a historia na mão. Mas que socialismo? o de Babeuf, o de Fourier, de Saint-Simon, desta escola, daquella seita, não: simplesmente o da humanidade. É nesta resposta que está a originalidade e a segura verdade do livro. O socialismo não sáe de uma escola ou de uma seita: sáe do mais fundo da consciencia humana, affeiçoada por tres mil annos de progresso. Não é uma experiencia; é um resultado.