Outros estendam para ti as mãos,
Supplicantes, com fé, com esperança…
Ponham outros seu bem, sua confiança
Nas promessas e a luz dos dias vãos…
Eu não! Ao ver-te, penso: Que agonia
E que tortura ainda não provada
Hoje me ensinará esta alvorada?
E digo: Porque nasce mais um dia?
Antes tu nunca fosses, luz formosa!
Antes nunca existisses! e o Universo
Ficasse inerte e eternamente immerso
Do possivel na nevoa duvidosa!
O que trazes ao mundo em cada aurora?
O sentimento só, só a consciencia,
D'uma eterna, incuravel impotencia,
Do insaciavel desejo, que o devora!
De que são feitos os mais bellos dias?
De combates, de queixas, de terrores!
De que são feitos? de illusões, de dores,
De miserias, de maguas, de agonias!
O sol, inexoravel semeador,
Sem jamais se cançar, percorre o espaço,
E em borbotões lhe jorram do regaço
As sementes innumeras da Dor!
Oh! como cresce, sob a luz ardente,
A seara maldita! como treme
Sob os ventos da vida e como geme
N'um susurro monotono e plangente!
E cresce e alastra, em ondas voluptuosas,
Em ondas de cruel fecundidade,
Com a força e a subtil tenacidade
Invencivel das plantas venenosas!
De podridões antigas se alimenta,
Da antiga podridão do chão fatal…
Uma fragrancia morbida, mortal
Lhe reçuma da seiva peçonhenta…
E é esse aroma languido e profundo,
Feito de seducções vagas, magneticas,
De ardor carnal e de attracções poeticas,
É esse aroma que envenena o mundo!