E a mim, a quem deu olhos para ver-te,
Sem poder mais… a mim o que me ha dado?
Voz, que te cante, e uma alma para amar-te!

A Santos Valente

Estreita é do prazer na vida a taça:
Largo, como o oceano é largo e fundo,
E como elle em venturas infecundo,
O cális amargoso da desgraça.

E comtudo nossa alma, quando passa
incerta peregrina, pelo mundo,
Prazer só pede à vida, amor fecundo,
É com essa esperança que se abraça.

É lei de Deus este aspirar immenso…
E comtudo a illusão impoz à vida.
E manda buscar luz e dá-nos treva!

Ah! se Deus accendeu um foco intenso
De amor e dor em nós, na ardente lida,
Porque a miragem cria… ou porque a leva?

Tormanto do Ideal

Conheci a Belleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,

Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre:
Assim eu vi o mundo e o que elle encerra
Perder a côr, bem como a nuvem que erra
Ao pôr do sol e sobre o mar discorre.

Pedindo à fórma, em vão, a idea pura,
Tropéço, em sombras, na materia dura.
E encontro a imperfeição de quanto existe.