A um crucifixo

Lendo, passados 12 annos, o soneto da parte 1.^a que tem o mesmo
titulo

Não se perdeu teu sangue generoso,
Nem padeceste em vão, quem quer que foste,
Plebeu antigo, que amarrado ao poste
Morreste como vil e faccioso.

D'esse sangue maldito e ignominioso
Surgio armada uma invencivel hoste…
Paz aos homens e guerra aos deuses!—poz-te
Em vão sobre um altar o vulgo ocioso…

Do pobre que protesta foste a imagem:
Um povo em ti começa, um homem novo:
De ti data essa tragica linhagem.

Por isso nós, a Plebe, ao pensar n'isto,
Lembraremos, herdeiros d'esse povo,
Que entre nossos avós se conta Christo.

DIALOGO

A cruz dizia á terra onde assentava,
Ao valle obscuro, ao monte aspero e mudo:
—Que és tu, abysmo e jaula, aonde tudo
Vive na dor e em lucta cega e brava?

Sempre em trabalho, condemnada escrava.
Que fazes tu de grande e bom, comtudo?
Resignada, és só lodo informe e rudo;
Revoltosa, és só fogo e horrida lava…

Mas a mim não ha alta e livre serra
Que me possa igualar!.. amor, firmeza,
Sou eu só: sou a paz, tu és a guerra!