Pedindo á forma, em vão, a idea pura
Tropeço, em sombras, na materia dura
E encontro a imperfeição de quanto existe.

Esta nota é mais constitucionalmente verdadeira. «Seja a terra degredo, o ceu destino» diz n'um ponto; e n'outro:

Minha alma, ó Deus, a outros ceus aspira:
Se um momento a prendeu mortal belleza
É pela eterna patria que suspira…

Não acreditemos tambem demasiadamente n'isto, porque Deus não passa ainda de uma interrogação:

Pura essencia das lagrimas que choro
E sonho dos meus sonhos! Se és verdade,
Descobre-te, visão, no ceu ao menos!

As luctas infantís d'este primeiro periodo para saber se Deus é ou não é verdade, bastam, em si mesmo e no proprio modo por que estão expressas, para nos mostrar que o poeta não saiu ainda das espheras da representação elementar dos seres, para a esphera comprehensiva das abstracções racionaes. Os sonetos d'esta primeira serie desenrolam-se no terreno da phantasmagoria transcendente. O traço mais seguro de todos e o mais significativo está n'este verso:

Que sempre o mal peior é ter nascido.

A segunda serie tem a data de 1862-6. Psychologicamente é a menos original, artisticamente é a mais brilhante. O Sonho oriental, o Idyllio, o Palacio da Ventura, são obras primas, até de colorido. Talvez por isso mesmo que o estado de espirito do poeta o não obrigava a tirar tanto de si, e porque n'esta epocha viveu mais á lei da natureza; talvez por isso mesmo a sentiu e pintou melhor nas suas côres, nas suas imagens.

A nebulose do primeiro periodo começava a resolver-se n'uma tragedia mental, que umas vezes tem os sonhos dos que mastigam haschich, outras vezes furias de desespero, ironias como punhaes e gritos lancinantes:

Se nada ha que me aqueça esta frieza,
Se estou cheio de fel e de tristeza,
É de crer que só eu seja o culpado.