Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me apparece
Da noite nas phantasticas estradas.

D'onde vem elle? Que regiões sagradas
E terriveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavalleiro de expressão potente,
Formidavel, mas placido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a fera extranha sem temor.
E o corcel negro diz: «Eu sou a Morte!»
Responde o cavalleiro: «Eu sou o Amor!»

ESTOICISMO

(A Manoel Duarte de Almeida)

Tu que não crês, nem amas, nem esperas,
Espirito de eterna negação,
Teu halito gelou-me o coração
E destroçou-me da alma as primaveras…

Atravessando regiões austeras,
Cheias de noite e cava escuridão,
Como n'um sonho mau, só oiço um não,
Que eternamente ecchoa entre as espheras…

—Porque suspiras, porque te lamentas,
Cobarde coração? Debalde intentas
Oppor á Sorte a queixa do egoismo…

Deixa aos timidos, deixa aos sonhadores
A esperança van, seus vãos fulgores…
Sabe tu encarar sereno o abysmo!