Muito longe d'aqui, nem eu sei quando,
Nem onde era esse mundo, em que eu vivia…
Mas tão longe… que até dizer podia
Que emquanto lá andei, andei sonhando…

Porque era tudo ali aereo e brando,
E lucida a existencia amanhecia…
E eu… leve como a luz… até que um dia
Um vento me tomou, e vim rolando…

Cahi e achei-me, de repente, involto
Em lucta bestial, na arena fera,
Onde um bruto furor bramia solto.

Senti um monstro em mim nascer n'essa hora,
E achei-me de improviso feito fera…
—É assim que rujo entre leões agora!

NIRVÂNA

(A Guerra Junqueiro)

Para além do Universo luminoso,
Cheio de fórmas, de rumor, de lida,
De forças, de desejos e de vida,
Abre-se como um vacuo tenebroso.

A onda d'esse mar tumultuoso
Vem ali expirar, esmaecida…
N'uma immobilidade indefinida
Termina ali o ser, inerte, ocioso…

E quando o pensamento, assim absorto,
Emerge a custo d'esse mundo morto
E torna a olhar as cousas naturaes,

Á bella luz da vida, ampla, infinita,
Só vê com tedio, em tudo quanto fita,
A illusão e o vasio universaes.