Só quem teme o Não-ser é que se assusta
Com teu vasto silencio mortuario,
Noite sem fim, espaço solitario,
Noite da Morte, tenebrosa e augusta…
Eu não: minh'alma humilde mas robusta
Entra crente em teu atrio funerario:
Para os mais és um vacuo cinerario,
A mim sorri-me a tua face adusta.
A mim seduz-me a paz santa e ineffavel
E o silencio sem par do Inalteravel,
Que envolve o eterno amor no eterno luto.
Talvez seja peccado procurar-te,
Mas não sonhar comtigo e adorar-te,
Não-ser, que és o Ser unico absoluto.
Contemplação
(A Francisco Machado de Faria e Maia)
Sonho de olhos abertos, caminhando
Não entre as formas já e as apparencias,
Mas vendo a face immovel das essencias,
Entre ideas e espiritos pairando…
Que é o mundo ante mim? fumo ondeando,
Visões sem ser, fragmentos de existencias…
Uma nevoa de enganos e impotencias
Sobre vacuo insondavel rastejando…
E d'entre a nevoa e a sombra universaes
Só me chega um murmurio, feito de ais…
É a queixa, o profundissimo gemido
Das cousas, que procuram cegamente
Na sua noite e dolorosamente
Outra luz, outro fim só presentido…