Se apenas se tratasse, com effeito, de exalar no ar ardente das praças publicas a alma enthusiasta e fraternal que ainda os mais frios e os mais timidos sentem agitar-se-lhes dentro n'estes momentos de fermentação universal; se apenas se tratasse de nobres sentimentos, de inspirações formosas, de palavras de fé--nenhuma missão tão bella como a do revolucionario e nenhuma tão facil...
Se se tratasse ainda de concentrar todas as forças da revolução, as boas como as más, as violentas com preferencia ás outras todas, n'um momento de lucta supprema, louca, feroz; se se tratasse de metter medo como Mario em Roma e Danton em Paris--a missão do revolucionario seria formidavel, tremenda, mas era, ainda assim, facil...
Mas essa missão é, pelo contrario, de paz, de reflexão, quasi de sciencia. N'isto está a sua superioridade, mas n'isto tambem a sua difficuldade suprema. Não se trata de palavras, mas de obras; de proclamações sonoras, mas de estabelecimentos duraveis; de sentimentos, mas de instituições. Uma das muitas traducções livres da palavra revolução é esta: revelação. No momento da crise apaixonada, as forças mais intimas, os elementos mais profundos da sociedade revolvida nos seus abysmos, agitando-se por chegar á claridade, sobem até á superficie e mostram-se á luz do dia com uma energia, uma verdade irresistiveis. É uma revelação: vê-se o{7} que ha, e vê-se com que tem de se contar, em bem e em mal, durante o longo periodo que se segue sempre áquelles momentos de impulso decisivo. Por vinte, por quarenta annos, por um seculo ás vezes, a vida nacional não é mais do que o desenvolvimento, a combinação ou a lucta d'aquelles elementos revelados na hora prophetica da revolução. A França do seculo XIX viu-se toda, sem lhe faltar um traço, como reflectida n'um espelho concentrador, nos dez annos terriveis mas gigantescos de 89 a 99.
E Roma, a Roma imperial e plebeia, que tinha de durar quinhentos annos, revelou-se inteira no dia em que Julio, Cesar apoiando-se no hombro rude dos seus legionarios, atravessou o Rubicon para inaugurar sobre as ruinas da legalidade aristocratica a egualdade despotica dos Cesares. N'estes momentos de crise, parece que cada um dos elementos da nova sociedade, cada uma das classes, cada um dos interesses que se repartem o chão e o sol da patria, levanta a mão diante da estatua velada do futuro, com esta exclamação: contae commigo!
Tomar nota de cada um d'estes gritos supremos, dar o seu logar, na constituição futura, a cada uma d'estas forças, pôr em harmonia, como diz Proudhon, a politica com a economia, crear uma fórma á imagem da substancia social revelada, um governo, emfim, que seja a expressão completa da vida intima da nação--eis a alta, a verdadeira missão do revolucionario, ou antes, a missão das gerações revolucionarias. Uma grande epoca historica, ou um miseravel aborto, podem sair (e irremediavelmente) das mãos d'aquelles que recebem nos seus braços o recemnascido das revoluções, o futuro, conforme--intelligentes ou inhabeis, generosos ou perfidos--o{8} envolvem em veste que, acalentando-o, o deixe mover-se á vontade, crescer e desenvolver-se, ou o apertam em faichas estreitas e duras aonde se atrophia, estrebucha e morre. Ai da nação, que no dia seguinte ao do seu renascimento revolucionario, só encontrou nas fontes do baptismo politico, traidores ou imbecis por padrinhos! Os maiores heroismos tornam-se então infecundos. Um sophisma gangrena todos os centros da vida nacional. Os protestos e as revoltas estereis, as repressões e as tyrannias absurdas succedem-se, redobram-se, tão inuteis uns como os outros, porque o mal é intimo e indestructivel. A politica não corresponde á economia, o governo é uma coisa e outra coisa a sociedade, os interesses são de uma naturesa e a direcção dos interesses obedece a principios de naturesa opposta, povo e administração, governados e governantes, como duas raças hostis, sentindo e pensando de modos desvairados, fallando diversas linguas, adorando deuses diversos, não fazem em cada dia senão cavar o abysmo aonde se affundem a liberdade, a honra, a moral, a riqueza, a intelligencia e, a final, o corpo todo da nação. Este é o segredo das grandes decadencias que têem affligido e escandalisado a humanidade. Por aqui se têem arruinado as mais florescentes civilisações, porque nenhum organismo, por mais robusto que seja, resiste a esta dilaceração intima de cada dia e de cada hora, em cada membro e em cada parte de cada membro...
É n'este abysmo que não quizeramos ver despenhar-se a nobre, a heroica, a inspirada Hespanha. Para isso só temos a dar-lhe um conselho: é o da philosofia politica d'este seculo: o conselho que lhe dá Victor Hugo,{9} Girardin, Cremieux; que lhe dariam Tocqueville e Proudhon, ou antes, que lhe dão através do tumulo, e mais alto e mais eloquente ainda, porque o espirito d'estes nobres apostolos vive e cresce, á maneira que se desenvolvem e frutificam as verdades descobertas por elles, e por elles depositadas no seio da sciencia, entre todas humana e entre todas divina, a sciencia da Justiça social.
Eis aqui o que ella diz, a sciencia, e o que elles repetem, os seus prophetas. «Não atraiçoeis com fórmas timidas e mentirosas a originalidade e a franqueza da vossa revolução. Hespanhoes, não encarcereis nas vestes estreitas da Hespanha velha e rachitica, a Hespanha rejuvenecida e engrandecida. O moço coração d'esta, que quer bater em liberdade, estalaria comprimido pelo duro espartilho de que aquella, impotente e senil, precisava para se suster direita. Não comeceis por baptisar a nova sociedade com um nome de contradicção e de guerra. Olhai para ella na sublime nudez d'este momento unico, e tal como a virdes, o que virdes que ella é, seja esse o seu nome de baptismo, embora estranho e incomprehensivel para uns, inaudito e terrivel para outros, com tanto que seja o seu nome verdadeiro. O governo é para a nação, não a nação para o governo. A nação é o navio, o governo a vella. E dareis vós á nau alterosa, para a levar pelos mares aparcelados da historia, a vella esguia e estreita do humilde barco costeiro? E essas construcções simples, geometricas, rigorosas da arte nautica do seculo XIX, sobrecarrega-las-heis vós com a armação pesada, grosseira e complicada dos galeões do seculo XVI?
Cada momento da historia dos povos tem a sua fórma,{10} o seu governo, assim como a cada edade correspondem as suas aptidões, os seus sentimentos, os seus modos particulares. Chegastes á virilidade? fallai como homens! andai, obrai como homens feitos! Não imiteis a Europa illudida ou timorata: espantae-a. Não lhe aceiteis os conselhos de prudencia senil: não sejaes discipulos, sêde mestres. Admira-vos já na coragem, na generosidade, na força serena: pois bem! que vos tome agora por exemplo n'uma coisa tão bella como essas, e maior ainda que qualquer d'ellas: na logica.»
IV
Mas essa sociedade hespanhola, de cuja intima essencia deve saír a fórma do novo governo, e de cujo pensamento elle deve ser apenas a palavra (sob pena de uma disformidade tão monstruosa, na ordem dos organismos politicos, como na ordem dos organismos naturaes, seria um animal com membros e entranhas de uma especie e cabeça de uma especie diversa), essa sociedade hespanhola o que é ella então, e como acaba a Revolução de 1868 de nol-a revelar?