Chegados a estas conclusões, vemos o ideal revolucionario de Portugal tocar-se, confundir-se com o ideal{34} da revolução hespanhola. Para toda a peninsula não ha hoje senão uma unica politica possivel: a da federação-republicana-democratica. E, em face d'esta formidavel unidade de interesses, de ideas, de vontades, e de aspirações, que podem as barreiras da nacionalidade significar mais do que uma tradição, um symbolo poetico, cujo sentido se perde de dia para dia, até se tornar de todo incomprehensivel, até desapparecer? Moralmente essas barreiras cairam já. Para as consciencias mais rectas, para as intelligencias mais seguras dos dois povos, unidas nos mesmos desejos e n'um pensamento commum, a nacionalidade não passa d'um obstaculo desgraçado, resto das hostilidades fataes de seculos barbaros, e que só por um lamentavel accordo dos interesses da minoria dominante e dos prejuizos da multidão inintelligente se tem podido sustentar. Mas esse accordo desfez-se. O irresistivel movimento democratico da nossa sociedade vai tornar inevitavel a queda da nacionalidade, nas opiniões, a principio, e mais tarde nos factos, no grande dia do abraço fraternal das populações da peninsula iberica. A revolução social é identica para os dois povos: identica, para os dois povos, deve ser a revolução politica. E o successo ou insuccesso da actual revolução hespanhola, o seu desfecho feliz ou infeliz, em nada altera este ponto de vista puramente ideal da politica iberica. Organisado o federalismo democratico em Hespanha, é um facto, um facto visivel e soberano, que se torna o alvo das nossas aspirações, o nosso exemplo, o programma do unico partido com vida e significação em Portugal. Nem, em tal caso, é só um partido, mas a nação toda, que levada por um impulso irresistivel gravita para o centro de attracção da{35} constellação federal--Mas, perturbado o desenvolvimento logico da revolução pela ignorancia, a pusilanimidade, ou a intriga, como nenhum governo estavel, alem da federação, se póde estabelecer em Hespanha, a violenta anarchia, que se seguir, será ao mesmo tempo uma prova irrefutavel, ainda que indirecta, da verdade do programma que traçámos á revolução, e um signal para todos os homens intelligentes, sinceros, e corajosos se unirem, sem distincção de nacionalidade, em volta da bandeira da republica democratica e federal. Em qualquer dos dois casos, a politica, para nós portuguezes, é sempre a mesma: o nosso caminho está traçado, invariavel e superior ainda ás oscilações e tremores do terreno por onde a força inexoravel das coisas o obriga a passar. Em qualquer dos dois casos, a nacionalidade, esta estreita nacionalidade dentro da qual nos está comprimindo a monarchia burgueza, tem de ser sacrificada, quer no facto d'uma revolução, quer no programma d'um partido revolucionario, a uma forma mais larga, mais livre, e mais fraternal. Em qualquer dos dois casos, para todos os elementos moços, intelligentes, activos da sociedade portugueza, não ha outra saida aberta senão esta: a democracia iberica; nem outra politica, politica capaz de idéas, de futuro e de grandeza, possivel em Portugal, senão esta: a politica do iberismo.
IX
E agora, por despedida, duas palavras sinceras aos patriotas portuguezes. O patriotismo póde symbolisar-se{36} hoje n'uma ideia falsa e estreitissima: mas nem por isso deixa de ser um sentimento respeitavel. Certamente que, para os Fuas Roupinhos e os Espadeiros do jornalismo a tanto por linha, o patriotismo não passa de uma palavra sonora, o enthusiasmo nacional de uma boa especulação. Assim tambem não é com elles que fallo. Dirijo-me aos espiritos candidos e rectos, mas cheios de illusões e pouco esclarecidos sobre a natureza dos movimentos sociaes, ás vontades energicas, mas falsamente encaminhadas, aos homens verdadeiramente bons e dedicados das nossas provincias, que, obedecendo a um dos mais bellos sentimentos humanos, o amor da patria, tomam a nacionalidade pelo symbolo unico, pela fórma mais perfeita d'esse sentimento.
Sem faltar ao respeito devido a tão honestas convicções, atrever-me-hei a ponderar-lhes que o amor da patria não coincide rigorosamente com o facto da nacionalidade: são duas coisas distinctas, ainda que ligadas estreitamente e servindo uma de manifestação á outra, como serve a palavra de manifestação ao pensamento. Mas são distinctas: e assim como a palavra falta mais de uma vez ao pensamento, e o atraiçôa, póde uma nacionalidade gasta ou acanhada faltar ao amor da patria com as condicções do seu inteiro desenvolvimento, atraiçoando as suas mais formosas aspirações, os seus mais intimos impulsos. A patria, com effeito, não é o chão, o ar, o sol, os rios e os montes nataes: patria assim tem-na igualmente as arvores d'esses campos e os musgos d'essas rochas: o patriotismo, n'esse caso, deixava de ser um sentimento exclusivamente humano, para se confundir com as simples leis do mundo organico. É no homem, na sua natureza moral, que se devem{37} procurar as razões intimas d'este facto universal e até hoje indestructivel. Ao ceu dos campos e dos montes patrios, á sombra das suas igrejas e dos seus castellos, á lingua dos seus habitantes, aos costumes, ás tradicções, não nos prende um instincto cego, uma fatalidade de especie, ou uma attracção poetica da phantasia. Tudo isso, se é bello para nós, é só por que nos representa, em symbolo harmonioso, o pensamento intimo do nosso ser, e parece traduzir-nos o segredo mysterioso da nossa consciencia. N'esse conjuncto de coisas, ideias, e sentimentos, vemos as condicções do desenvolvimento mais perfeito da nossa natureza moral, o instrumento da exaltação da nossa personalidade, na sua mais rica complexidade, como homens perante os homens, criaturas perante a criação, espiritos perante o nosso proprio espirito. Por isso, e só por isso, amamos a patria. Ella não é somente o berço das nossas affeições instinctivas: é mais: é o ninho aonde crescem e vigoram os filhos mais queridos da nossa alma, as energias da nossa livre actividade. A patria não é um accidente da natureza material, mas um facto da consciencia humana.
A nacionalidade, essa, é apenas a fórma passageira e artificial de tudo isto. É um facto do mundo politico e, como elle, transitorio e alteravel. No momento em que muitos interesses se reconhecem semelhantes, muitos patriotismos irmãos, tendo em commum o mesmo ideal e as mesmas condicções de o realisar, agrupam-se, fundem-se, levados pela attracção irresistivel entre naturezas homogeneas, e pela necessidade de se deffenderem e affirmarem em face do mundo. Eis uma nacionalidade, obra de momento, sugeita á dupla acção do{38} tempo e do movimento humano, e por isso instavel e transitoria como o correr dos annos e o transformar-se dos interesses e das ideias sociaes. Concebe-se facilmente que esses interesses deixem de ser homogeneos, que essas ideias se possam contradizer: concebe-se que a fórma nacional, em vez de realisar o ideal de pleno desenvolvimento material e moral symbolisado no amor patrio, lhe suffoque os impulsos mais generosos, e atraiçoe as suas mais legitimas aspirações. A nacionalidade deixa então de ser o pavilhão luminoso, que sob os seus tectos doirados cobria muitas cabeças irmans, para se transformar n'uma abobada escura e fria de ergastulo, aonde gemem muitos miseraveis escravos...
Será este o caso de Portugal? Atrevo-me a dizer que é. As forças mais vivas, as energias mais moças e intelligentes, os elementos mais generosos da nossa sociedade, estão comprimidos, asphixiados por esta fórma estreita da velha nacionalidade. Entre uma coisa e outra é necessario escolher. Ora eu sustento que, entre as realidades eternas da natureza humana, de um lado, e, do outro, a criação artificiosa e antiquada da politica, não ha que hesitar. Se não é possivel sermos justos, fortes, nobres, intelligentes, senão deixando caír nos abysmos da historia essa coisa a que já se chamou nação portugueza, cáia a nação, mas sejamos aquillo para que nos criou a natureza, sejamos intelligentes, nobres, fortes, justos, sejamos homens, muito embora deixemos de ser portuguezes. Uma nação moribunda é uma coisa poetica: infelizmente a melhor poesia, em politica, não passa de uma politica mediocre. Chorar, recordar-se, ou ameaçar em sonoros versos, póde ser extremamente sentimental: mas não adianta uma polegada{39} os nossos negocios... Eu, por mim, pondo de parte toda a poesia e toda a sentimentalidade, contentar-me-hei de affirmar aos patriotas portuguezes esta verdade de simples bom senso: que, nas nossas actuaes circumstancias, o unico acto possivel e logico de verdadeiro patriotismo consiste em renegar a nacionalidade.