E foi Deus quem me deu o meu thesouro,
Como á ave que vôa deu a penna,
Que a libra pelo espaço; e ao olho morto
Do ancião, a luz que aponta melhor mundo.

Na assembléa dos homens, se um, olhando-me
Disser—«Aquelle é rei»—irei prostrar-me
Diante do Senhor, abrindo o espirito
Á voz que dentro d'elle Deus murmura;
E Deus vendo-me puro na consciencia
Dirá—«Ergue-te em paz: não és culpado»—!

Se sentir dentro d'alma alguma f'rida
Vertendo sangue e fel, em dor extrema,
Buscarei no Senhor o meu alivio:
E o Senhor, pondo um dedo sobre a chaga,
Dirá—«Fica-te em paz: estás curado»—!

Oh minha doce paz! por ti se cumpram
Os decretos do Eterno: tu me escuda
Dos tiros que a maldade em mim dispara;
A força do leão põe-me na mente,
A mansidão da pomba dentro d'alma.
Oh pomba ingenua, pomba immaculada,
Filha do céo ao céo voemos juntos.

Janeiro, 1861.

V

N'UMA NOITE DE PRIMAVERA

N'UMA NOITE DE PRIMAVERA

(*DO POEMA VASCO*)

1.^o FRAGMENTO