Não vem de mim nem da terra
—Que tal ouvir não encerra—
O que este peito descerra
N'um hymno de tanta fé:
Eu scismo ás vezes de amores,
Porém são outros ardores,
Outros são os seus fervores,
Outro amor que este não é…
Eu tenho sonhos de gloria,
Que me acodem á memoria
Como a visão illusoria,
Que brilha e que se desfaz:
De ouro e nome tenho sêde;—
Do poder aspiro á séde…
Mas toda esta gloria cede
Á gloria de luz e paz!
Oh! trasborda-me este affecto,
Que aqui dentro anda secreto,
Como de vaso repleto
Trasborda puro o licor!
Oh! inunda-me este oceano
De um amor tão sobre-humano,
Tam puro de todo o engano…
Que nem sei se é isto amor!
Oh! embala-me esta esp'rança,
Aonde a alma me descança
Em pura e santa bonança,
Tão bafejada de Deus,
Que não pode—eu bem o vejo—
Descender-me este desejo
Senão da patria que invejo…
Oh! esta esp'rança é dos céos!
És tu oh Deus que me chamas!
És tu Senhor que me inflammas
N'aquellas ardentes chammas,
Que me dão tão pura luz!
És tu, oh Pae! que da altura,
Olhando a minha amargura,
Me estendes a mão segura,
A mão que a ti nos conduz!
Sim! minha alma te pressente!
Guiada por luz ingente
D'esse fanal que não mente,
Já p'ra ti desprende o vôo…
Oh! quem tem essa luz querida,
Não tem outra promettida,
Não pode amar outra vida…
Senhor! eu busco-te… eu vou!
Coimbra, 1861