Deixa que escreva aqui teu nome todo,
E já d'aqui aspire teu perfume!
E, arredando co'as mãos o frio lodo
Do presente, me aqueça a esse teu lume!
Deixa beijar-te em sonho, e d'este modo
Trazer-te unida ao seio, que consumme
Esta ancia ardente de destino novo,
E este fogo roubado ao seio do povo!

Porque te vemos só quando sonhamos…
E, irmã! só nos sorris em nosso somno…
E, a dormir, doce amiga, te beijamos!
Tu—só em nossas almas—tens teu throno
Ainda! mas, sem ver-te, te adoramos,
E, como um cão fiel segue o seu dono,
Trazemos ante o olhar tua lembrança,
E caminhamos cheios de confiança!

Fraternidade! esta palavra é suave,
Como antegosto de melhor destino!
Como a onda de um Ganges que nos lave!
E como a pósse de um penhor divino!
Como o vôo sereno de uma ave
Que, sendo apenas ponto pequenino,
Emtanto faz, transpondo ao longe um monte,
Sonhar com melhor céo e outro horisonte!

O grande céo! o céo da humanidade!
Onde os povos serão constellações,
E, destillando a luz da liberdade,
Serão astros e estrellas as nações!
Onde hade o grande laço da egualdade
Reunir a vontade e os corações!
Cobrindo-os, a dormir, os mesmos céos,
Terão todos tambem o mesmo Deus.

Não vejo outro Evangelho de ouro escripto
Dentro no homem,—nem sei que outro areal,
Outro cabo, outro monte de granito,
Do grande navegar surja a final!
Guiados pelo instincto do infinito
É para lá que os povos—náo real!—
Hão a prôa virar lá quando um dia
Marearem pela bussula harmonia!

II

Hãode então, como irmãos, reconhecer-se
Os amigos—ha tanto tempo ausentes!
Hão então (caso novo e estranho!) ver-se
Face a face as nações, sem que dementes
As entranhas se rasguem! e hade lêr-se
Um protocolo, em letras de ouro, ingentes,
Escripto, sem emenda e sem errata,
Por mãos do amor—o grande diplomata!

III

Elle é quem concilia as differenças,
Quem nos concilios hade erguer a voz,
Tirando nova ideia e novas crenças
Das esfriadas cinzas dos avós!
E, sem trabalhos, e sem dôres immensas,
E sem rios de sangue e pranto após,
Rasgando o ventre á velha liberdade
Sairá á luz a joven Egualdade!

É doce vêr assim, á luz da esperança,
Pelo futuro dentro, as cousas bellas…
Prevêr do céo humano essa mudança,
Que em sóes converte as minimas estrellas!
Do passado infeliz eis a vingança!
E dos mortos as faces amarellas,
Córando de ventura e de alegria,
Hãode surgir, emfim, á luz do dia!