No figueiral figueiredo,
Lá no figueiral entrei.
Eu então lhe replicára:
—Por minha fé, não irei;
Antes olhos d'essa cara
Bem caros os comprarei;
A longas terras distantes
Só por seguir-vos me irei;
Por caminhos dasvairados
Atraz de vós andarei;
Linguas moiras de aravias
Por vós eu as fallarei;
Moiros se me apparecerem
A todos os matarei.

No figueiral figueiredo,
Lá no figueiral entrei.
N'isto o moiro que as guardára,
Perto d'ali encontrei:
Se elle bem me ameaçára,
Eu melhor o ameacei;
Um tronco secco esgalhára,
Um tronco secco esgalhei;
Com elle a todos matára,
A todos desbaratei;
As donzellas libertára,
Todas sim as libertei;
Aquella que me fallára
Com ella me casarei.
No figueiral figueiredo,
Lá no figueiral entrei.

XXXI

SONETOS DESPREZADOS

Incorporamos aqui os Sonetos IV, X, XVI, XVII e XX, da collecção de
Coimbra, de 1861, não incluidos no volume dos Sonetos completos.

A M. E.

Terra do exilio! Aqui tambem as flores
Têm perfume e matiz; tambem vicejam
Rosas no prado, e pelo prado adejam
Zéfiros brandos suspirando amores:

Tambem cá tem a terra seus primores;
Pelos vales as fontes rumorejam;
Tem as moitas seus sôpros, que bafejam,
E o céo tem sua luz e seus ardores.

Em toda a natureza ha amor e cantos,
Em toda a natureza Deus se encerra…
E comtudo esta é a causa de meus prantos!

Eu sou bem como a flor que não descerra
Em clima alheio. Que importam teus encantos?
Não és, terra do exilio, a minha terra.